O que a Copa do Mundo de 2026 pode revelar sobre fraudes no Brasil

Quanto maior o avanço do Brasil na competição, maior era tendência de impacto sobre o comportamento bancário da população

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Lance de partida de futebol entre Brasil e Chile, com jogador da seleção brasileira caindo próximo à linha lateral enquanto atletas da equipe adversária disputam a bola em campo.
Imagem: Shutterstock

Por Diego Baldin

Mais uma vez, o Brasil chegou à Copa do Mundo de 2026 entre os principais favoritos ao título. A sexta colocada no ranking da FIFA, a Seleção buscava a sexta estrela, quando foi desclassificada nas oitavas de final – a última conquista foi em 2002, quando levantou o pentacampeonato. Mas, além do desempenho dentro de campo, a campanha brasileira no torneio tende a produzir efeitos menos óbvios, especialmente no comportamento financeiro dos consumidores e, consequentemente, na dinâmica das fraudes no país.

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A final da Copa de 2022, entre Argentina e França, atraiu cerca de 1,5 bilhão de espectadores em todo o mundo. Por trás desse número, há uma cadeia intensa de consumo: compra de ingressos, reservas de viagens, hospedagens, aquisição de produtos oficiais, consumo em bares e, claro, apostas esportivas. Quanto maior o avanço do Brasil na competição, maior era tendência de impacto sobre o comportamento bancário da população – e maior também a janela de oportunidade para os fraudadores.

Quando o comportamento muda, o risco acompanha

Análises conduzidas pela BioCatch, empresa que atua na prevenção de fraudes e crimes financeiros junto a grandes instituições globais, mostram que grandes eventos esportivos alteram de forma significativa o comportamento digital dos consumidores.

Durante partidas importantes, especialmente quando envolvem a seleção local, a atividade bancária digital tende a cair. A explicação é que tanto usuários quanto fraudadores desviam a atenção para o jogo.

Na Copa do Mundo de 2022, por exemplo, houve uma queda relevante no número de acessos a aplicativos bancários entre brasileiros e argentinos durante os jogos de suas seleções. Na final da Copa América de 2024, a Colômbia registrou uma redução de 63% nessas sessões, acompanhada por uma queda expressiva nos volumes de fraude.

O mesmo padrão se repetiu em outros contextos. Durante toda a Copa de 2018, instituições financeiras brasileiras registraram 21% menos tentativas de fraude, enquanto bancos mexicanos observaram uma redução ainda mais acentuada, de 87%.

No dia da final de 2022, na Argentina, os casos de fraude despencaram 93%. A leitura é direta: consumidores estavam focados no jogo, e os próprios fraudadores também.

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Menos tempo, mais pressa

Outro dado relevante é a mudança no comportamento dos próprios criminosos. Durante a final da Eurocopa de 2024, no Reino Unido, apenas 35% das sessões de fraude duraram mais de 20 minutos contra 50% no restante do mês. Mais da metade das tentativas ocorreu em janelas muito curtas, entre dois e dez minutos.

Isso indica um padrão de atuação mais acelerado e oportunista, aproveitando brechas momentâneas de atenção.

Antes e depois do jogo: os picos de risco

Se durante as partidas a atividade digital diminui, o cenário se inverte nos momentos imediatamente anteriores e posteriores aos jogos.

Dados mostram que há picos relevantes de atividade bancária nesses intervalos. Entre os fatores que contribuem para esse aumento estão as apostas esportivas. Durante os jogos da Euro 2024 envolvendo Inglaterra e Escócia, segundo dados da BioCatch, houve aumento de 11% nas sessões bancárias em dispositivos com aplicativos de apostas nas horas que antecederam as partidas.

No dia da final, segundo a BioCatch, a atividade subiu 9% antes do início e 27% após o apito final. Já na decisão da Euro 2020, vencida pela Itália, o volume de acessos cresceu 56% após o término do jogo, indicando movimentações como resgates de apostas ou novas entradas.

Um cenário ainda mais exposto em 2026

A Copa de 2026 tende a ampliar esse fenômeno. Com um formato expandido – 48 seleções, 104 jogos e três países-sede – o torneio deve gerar picos prolongados de consumo em diferentes frentes: ingressos, viagens, produtos oficiais e apostas.

Esse ambiente, marcado por urgência e alta demanda, cria condições ideais para fraudes.

Golpes envolvendo venda de ingressos, falsas lojas online e tentativas de phishing devem ganhar força. É comum que criminosos se aproveitem do senso de escassez para pressionar consumidores a tomar decisões rápidas, muitas vezes sem a devida verificação.

O jogo fora de campo

A final da Copa do Mundo de 2026 está marcada para 19 de julho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Mas, independentemente do resultado em campo, há uma certeza: os padrões de fraude devem continuar acompanhando de perto o comportamento digital dos consumidores.

Para instituições financeiras, entender essas variações (especialmente no uso de canais móveis) será essencial para antecipar riscos e proteger os clientes em um período em que a atenção está voltada, quase integralmente, para o futebol.

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Sobre o Autor

Diego Baldin é diretor de Global Advisory da BioCatch para a América Latina, onde apoia instituições financeiras e lideranças executivas na leitura de um cenário em transformação. Seu trabalho conecta fraude, crime financeiro, regulação e governança, ajudando organizações a tomar decisões mais conscientes, sustentáveis e alinhadas às novas responsabilidades do setor.

Ao longo de sua trajetória, atuou próximo à evolução dos controles antifraude, incluindo abordagens baseadas em análise comportamental e sinais de interação digital, com foco aplicado em como estruturar mecanismos eficazes de prevenção em ambientes complexos e em constante mudança.

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