“IA não é apenas software”, diz presidente da Corning para a América Latina

Executivo afirma que a próxima onda da IA dependerá menos de novos algoritmos e mais da capacidade de expandir redes, data centers e infraestrutura

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Flávio Guimarães, presidente da Corning na América Latina e Caribe
Flávio Guimarães, presidente da Corning na América Latina e Caribe. Imagem: divulgação

A corrida global pela inteligência artificial esbarra em um obstáculo pouco discutido: a infraestrutura física que sustenta a tecnologia. A avaliação é do presidente da Corning na América Latina e Caribe, Flávio Guimarães, para quem o mundo vive duas transformações simultâneas. “Estamos vivendo uma revolução digital e outra na infraestrutura que sustenta essa evolução. Uma não acontece sem a outra”, afirma o executivo, em entrevista ao IT Forum.

Fabricante da fibra óptica de baixa perda, criada em 1970, a Corning completa 175 anos em 2026 com faturamento de US$ 16,41 bilhões em vendas core no ano passado, 78 fábricas e mais de 65 mil funcionários em mais de 40 países. A empresa americana, dona também do vidro Gorilla Glass usado em smartphones, ocupa a posição 324 no ranking Fortune 500.

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Para Guimarães, a percepção de que a IA vai além do software ganha força no mercado. “Para que ela gere valor em escala, precisamos de uma infraestrutura capaz de acompanhar esse crescimento”, diz. Na lista do executivo entram conectividade, capacidade computacional, disponibilidade de energia e uma cadeia industrial preparada para uma demanda que ele classifica como sem precedentes.

Três gargalos

O principal desafio, segundo o presidente da Corning, é sincronizar o crescimento da infraestrutura com a velocidade da inovação. Ele aponta três fatores críticos. O primeiro é energia, já que data centers exigem capacidade crescente de processamento e refrigeração. O segundo é conectividade, necessária para transportar volumes massivos de dados com baixa latência. O terceiro é o ritmo de expansão da cadeia como um todo.

“Construir novas plantas industriais, ampliar redes e implantar data centers exige investimentos, planejamento e tempo. Estamos diante de uma transformação tecnológica, mas também de uma transformação industrial de grande escala”, afirma.

Enquanto os semicondutores concentram as atenções do mercado, Guimarães vê a infraestrutura de conectividade como o elo menos debatido do ecossistema. “Sem essa infraestrutura, o potencial da IA simplesmente não consegue ser aproveitado em toda a sua escala”, diz. Para ele, o tema deve ganhar relevância nos próximos anos, à medida que as aplicações de IA se tornarem mais sofisticadas.

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Geopolítica e resiliência

As tensões geopolíticas e a reorganização das cadeias globais de suprimentos também entraram no radar da companhia. Guimarães avalia que o contexto reforçou a discussão sobre resiliência: a inovação passou a depender não só da qualidade da tecnologia, mas da capacidade de garantir continuidade e segurança no fornecimento. “O desafio está em equilibrar cadeias mais resilientes com um ambiente que continue estimulando inovação e cooperação internacional”, afirma.

Sobre o Brasil, o executivo vê espaço para um papel maior na pesquisa e na manufatura de tecnologias avançadas. Ele cita universidades de excelência, profissionais qualificados e uma base industrial relevante como pontos de partida. “Sempre que conseguimos aproximar pesquisa, indústria e inovação, aceleramos o desenvolvimento de soluções competitivas e criamos um ambiente mais favorável para investimentos de longo prazo”, diz.

A lição dos 175 anos

Fundada em 1851, a Corning atravessou revoluções tecnológicas atuando quase sempre nos bastidores. A empresa produziu o bulbo de vidro da lâmpada de Thomas Edison em 1879, o vidro PYREX em 1915, o espelho do telescópio Hale em 1935 e os substratos cerâmicos para catalisadores automotivos em 1972. Em 2021, forneceu tecnologias de captura de imagem para o telescópio espacial James Webb.

Questionado sobre o que sustenta a longevidade da companhia, Guimarães aponta a capacidade de reinvenção. “Muitas vezes, a Corning atua nos bastidores, desenvolvendo tecnologias que permitem que outras indústrias inovem”, afirma. A fórmula, segundo ele, permanece atual: entender um desafio relevante, desenvolver uma solução diferenciada e produzi-la em escala.

Para a próxima década, o executivo descarta apostar em uma única inovação transformadora. Ele prevê uma integração maior entre inteligência artificial, computação de alto desempenho, fotônica e infraestrutura digital. “Quem conseguir reduzir barreiras de conectividade, aumentar eficiência e ampliar a capacidade de processamento estará ajudando a construir a próxima geração da economia digital”, diz.

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Sobre o Autor

Pamela Sousa é editora-assistente no IT Forum, graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Especializa-se na cobertura de tecnologia, inteligência artificial e inovação, desenvolvendo reportagens aprofundadas e artigos analíticos sobre o impacto dessas tecnologias nos negócios e na sociedade.

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