Lição de “misantropia”: sem autoridade nacional de cibersegurança, Brasil continuará vulnerável, acredita especialista

Invasão ao sistema de alertas da Defesa Civil acende alerta sobre soberania digital e pressiona o Congresso a votar o Marco Legal da Cibersegurança

Publicado:

Leitura 5 minutos

Patricia Peck. Foto: Divulgação (dados)
Patricia Peck. Foto: Divulgação

Há alguns dias, o celular de milhões de brasileiros tocou com aquele som estridente inconfundível: o mesmo dos alertas de chuva forte e de risco de deslizamento. Mas a mensagem que apareceu na tela não avisava sobre nenhum desastre natural. Trazia apenas uma palavra: misantropia. Era sábado, dia 20 de junho e o sistema de alertas emergenciais do Brasil acabava de ser invadido.

O ataque à plataforma Interface de Divulgação de Alertas Públicos (IDAP), da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC), não apagou dados sigilosos, mas seu estrago foi de outro tipo e possivelmente mais duradouro. Usando credenciais roubadas de servidores públicos, ciberatacantes dispararam remotamente um “Alerta Extremo” via tecnologia Cell Broadcast para celulares em pelo menos oito estados, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. O sistema precisou ser tirado do ar e a Polícia Federal abriu investigação.

As melhores notícias de tecnologia B2B
Acompanhe todas as novidades diretamente na sua caixa de entrada

“Como uma pessoa conseguiu, de forma tão fácil, mandar uma mensagem para todos os celulares do Brasil?”, questiona a Professora Dra. Patricia Peck, CEO e sócia-fundadora do Peck Advogados e membro titular do Conselho Nacional de Cibersegurança (CNCiber) e presidente do Instituto IPCD. A pergunta resume o tamanho do problema e a urgência da resposta.

O incidente não foi uma anomalia técnica sofisticada. Foi, essencialmente, um problema de credencial comprometida, o tipo mais corriqueiro e mais frequente de vetor de ataque no mundo. Isso revela algo mais profundo sobre a cibersegurança brasileira: o maior desafio da segurança digital não está nos servidores. Está nas pessoas.

Os dados de 2026 do CTIR Gov são contundentes. Metade dos incidentes cibernéticos registrados envolvem engenharia social, ou golpes que exploram não falhas de software, mas gatilhos psicológicos humanos como urgência, medo e desconhecimento. Phishing sofisticado, a tática “ClickFix” que faz o próprio funcionário executar comandos maliciosos, perfis e sites falsos criados em massa. E no outro lado da linha estão pessoas, muitas vezes sem treinamento, sem antivírus adequado e sem criptografia de dados.

“É um absurdo vermos municípios no Brasil sem antivírus adequado ou sem criptografia de dados. Não basta contratar, precisa treinar e monitorar constantemente”, afirma Patricia. A situação é agravada por uma característica cultural que a especialista aponta sem rodeios. “O brasileiro é muito solícito, comunicativo, acolhedor e são exatamente essas características que os cibercriminosos exploram com engenharia social potencializada por inteligência artificial. A bondade do nosso cidadão acaba se tornando uma vulnerabilidade.”

O modelo britânico que o Brasil precisa ficar de olho

O ataque à Defesa Civil não acontece no vácuo. Na avaliação de especialistas, ele expõe uma governança fragmentada, sem autoridade única com poder claro de fiscalização e sanção, e sem mecanismos robustos de financiamento para cibersegurança pública. De acordo com Patricia, a Estratégia Nacional de Segurança da Informação (E-SegInfo) e a Política Nacional de Cibersegurança (PNCiber) evoluíram, mas carecem de força normativa vinculante. Em outras palavras: existem no papel, mas não chegam à ponta.

É nessa lacuna que entra o PL 4752/2025, o projeto do Marco Legal da Cibersegurança. O texto propõe a criação de uma autoridade nacional, estabelece obrigações concretas de notificação de incidentes, gestão de riscos e requisitos para a cadeia de suprimentos.

No entanto, segundo Patricia, o texto ainda precisa contar com melhorias, visto que não abarca recomendações relevantes que foram recomendadas pelo Conselho Nacional de Cibersegurança (CNCiber). “Hoje, 30 de junho, estarei na Audiência Pública em Brasília da CCT para discussão do projeto, visto que a tramitação desta pauta é urgente e necessária, e merece que seja dada prioridade pelo Congresso”, conta.

O modelo de referência que ela defende para o Brasil é o do Reino Unido. O National Cyber Security Centre (NCSC) britânico funciona como uma autoridade única que unifica a resposta a incidentes do governo, distribui diretrizes claras ao setor privado e, crucialmente, investe em educação digital desde as escolas. “Adotar uma governança centralizada, técnica e ágil como a do Reino Unido permitiria ao Brasil padronizar os requisitos de proteção de dados e resposta a incidentes de forma uniforme em todas as esferas públicas”, orienta.

Para chegar lá, o caminho passa por medidas estruturais. De acordo com ela, inclui desenvolver plataformas de capacitação gamificadas e obrigatórias via escolas de governo, condicionamento de repasses federais de digitalização ao cumprimento de requisitos mínimos de governança cibernética e campanhas de “do’s and don’ts” para servidores de todo o País. “Não tem como dissociar dados, IA e cyber. Estes três andam de mãos dadas”, finaliza ela.

Siga o IT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!

Sobre o Autor

Diretora de Marketing e Conteúdo da Itaqui e editora-chefe do IT Forum, Déborah Oliveira é jornalista com mais de 17 anos de experiência na área de TI. Atuou nas redações da Computerworld, CIO e IDG Now!. É bacharel em Jornalismo, com graduação executiva em Marketing e MBA em Marketing. Em 2018, venceu o prêmio de melhor Jornalista de TI no Brasil, concedido pelo Cecom. Nos anos de 2019 e 2020, foi destaque no mesmo prêmio na categoria Telecom. É uma das autoras do livro “Da Informática à Tecnologia da Informação – Jornalistas Contam Suas Histórias”, publicado pela Reality Books em 2020.

Ver publicações deste autor

Notícias relacionadas

Ver mais Seta para direita