O Big Brother vem aí. O de verdade…

Toda noite, em qualquer noticiário da TV, notícias – em geral sobre crimes ou acidentes – são ilustradas com imagens capturadas por uma “câmara de vigilância” qualquer. No começo isto só acontecia em grandes cidades e em certos locais particularmente sensíveis, como bancos, instituições financeiras e locais cuja segurança merecia cuidados especiais.
Hoje não.
Qualquer prédio – ou pelo menos a imensa maioria deles – tem câmaras de segurança como as da foto (obtida no sítio “Aprenda a Construir e Reformar”). E o plural não é casual: em geral são diversas. No edifício onde moro, um prédio simples e antigo de doze andares situado no Flamengo, no Rio de Janeiro, há pelo menos quatro: uma em cada elevador, uma na garagem e uma na fachada, cobrindo as duas entradas e parte da rua em frente. Na fachada do prédio ao lado há mais uma (no interior, não sei quantas mais haverá), e no seguinte ainda mais uma, e assim por diante, de modo que provavelmente não incorro em erro ao afirmar que toda a calçada de ambos os lados e toda a extensão da rua onde moro está permanentemente coberta pela vigilância de câmaras de segurança, cujas imagens são gravadas e arquivadas por certo período. E não se trata de uma rua particularmente importante, pelo contrário: é uma rua comum onde moram pessoas comuns.
Bem, mas isto é em um bairro da Zona Sul, região nobre do Rio de Janeiro, hão de alegar os mais céticos.
Na verdade, nem tão nobre assim. Mas mesmo nas ruas comuns das cidades comuns, inclusive no interior, também são comuns as câmaras de segurança. Talvez não sejam tão numerosas quanto nas grandes cidades, talvez não cubram toda a extensão de todas as ruas, talvez não gravem as imagens nem as armazenem por longo período.
Ainda.
Porque eu não tenho dúvida que daqui a algum tempo – e não muito – cada palmo de rua, cada saguão de edifício público ou privado, cada estabelecimento comercial grande ou pequeno de cada cidade dos países que fazem uso corrente da tecnologia moderna – e hoje, salvo raríssimas exceções nas regiões mais miseráveis do planeta, todos fazem – estará permanentemente coberto por uma câmara de segurança que gravará tudo o que lá se passa.
Por enquanto, naturalmente, com uma péssima qualidade de imagem.
Mas isto, também, é uma questão de tempo.
Melhor qualidade, menor preço
Quanto a TV nasceu – e eu, testemunha ocular da história que sou, acompanhei seu nascimento no Brasil durante os anos cinquenta do século passado – a qualidade da imagem era pífia. A resolução vertical passava pouco das duzentas linhas de pontos que tremeluziam em diferentes tonalidades de cinza, piscando bravamente em um tubo de imagem de raios catódicos no comovente esforço de formar imagens em preto e branco.
Agora, são comuns os aparelhos de alta definição, tela plana, LCD ou LED, capazes de exibir alguns milhões de tonalidades de cores em 1.080 linhas de pontos absolutamente nítidos que formam imagens com qualidade extraordinária. E sempre é bom lembrar que a TV de definição “ultra alta” (“Ultra High Definition TV”, ou UHDTV), com suas 4.320 linhas de brilhantes pontos coloridos, está em pleno desenvolvimento.
O mais interessante é que, por artes do mercado, da produção em massa e da evolução tecnológica, esta imensa melhoria na qualidade da imagem não veio acompanhada de um proporcional aumento dos preços (exceto, talvez, nos meses que sucederam o lançamento desta ou daquela novidade). Pelo contrário: hoje, para comprar uma televisão colorida de alta definição, tela plana e tamanho considerável, um chefe de família gasta uma fração muito menor de seu orçamento mensal do que gastava há meio século para comprar uma TV preto e branco de baixa resolução.
Logo, é natural que dentro de algum tempo a qualidade da imagem das câmaras de segurança evolua tanto quanto evoluiu a qualidade da imagem da TV. E não há razão para esperar que esta melhoria da qualidade seja alcançada a preços elevados. Em breve câmaras de vigilância de altíssima resolução custarão tanto ou menos que as atuais.
Portanto, é só uma questão de tempo: cedo ou tarde cada palmo do espaço público (e incluo como “espaço público” os saguões de entrada dos edifícios residenciais e seus elevadores) será coberto por câmaras de vigilância de alta resolução e excelente qualidade de imagem. E com a queda dos preços e aumento da capacidade dos dispositivos de armazenamento de massa como discos rígidos e óticos, estas imagens serão armazenadas por um tempo indeterminado.
Mas não é só isto. Há também o problema da interconectividade.
Tudo ligado a tudo
Ainda me lembro da primeira vez que usei a Internet no final da primeira metade dos anos noventa do século passado. Instalei o navegador, fechei minha conexão via linha discada com a formidável taxa de 56 Kb/s (convém lembrar que meu primeiro modem, usado para acessar os BBS – se é que alguém ainda lembra o que vinha a ser isto – operava na taxa de 2,4 Kb/s) e comecei a “passear pelo mundo”.
Mexe daqui, navega dali, acabei dando com os costados no sítio do Museu do Louvre. Fiquei tão impressionado ao ver as imagens (estáticas, naturalmente; eram meras fotos digitalizadas) exibidas “para mim” em tempo real diretamente do Museu do Louvre, no outro hemisfério, que não me contive e chamei minha companheira para compartilhar comigo aquela maravilha. Uma imagem armazenada nas instalações do Louvre, em Paris, sendo apreciada na tela de meu computador em tempo real!!!
Pois agora mesmo acabei de acessar o “Times Square Cam” (a imagem está aí em cima, uma captura de tela, para não me deixar mentir). Faça isto você também e aprecie o que estará acontecendo exatamente no momento em que o fizer no coração de Nova Iorque. Agora, por exemplo, dá para ver que faz frio, porque as pessoas estão agasalhadas. E que choveu recentemente, porque o piso ainda está molhado. São poucas as pessoas se movimentando na rua porque ainda é cedo (hoje, com o horário de verão no Rio de Janeiro, a diferença de fuso horário é de três horas e lá ainda são sete e meia da manhã). E como lá é inverno, algumas luzes ainda estão acesas neste escuro início de manhã invernal. Mas não somente a qualidade da imagem é excelente, como consigo ouvir o barulho do trânsito, uma ou outra buzina ocasional. Tudo isto ao vivo e a cores.
Sim, aqui do Rio de Janeiro estou vendo em tempo real o que ocorre em pleno centro de Manhattan usando minha conexão permanentemente ligada, via cabo, de alta taxa de transmissão (“banda larga”) de 20 Mb/s, portanto cerca de quatrocentas vezes maior que a de minha velha conexão discada. E pensar que há pouco mais de quinze anos eu me deslumbrava apenas porque conseguia ver uma reprodução estática de um quadro exibida diretamente do Museu do Louvre.
E vem aí a Internet das coisas, “um mundo onde todos os objetos físicos estarão integrados à Internet e se tornarão participantes ativos nos processos de negócios”.
Quer dizer: em um futuro não muito distante todas as câmaras de vigilância de todas as partes do mundo estarão conectadas à Internet e suas imagens poderão se integrar a um imenso banco de dados cujo alcance dependerá apenas do quanto se pretenda investir nele. E como os recursos computacionais estão se tornando cada vez mais baratos e a capacidade de processamento – sobretudo de processamento gráfico, cuja tendência atual é se integrar aos microprocessadores comuns – torna-se cada vez maior, não há porque não esperar que este banco de dados tenha abrangência mundial. Ou, pelo menos, nacional, já que há problemas de natureza política que talvez impeçam que os dados ultrapassem as fronteiras de certos países.
Reconhecimento facial
No início do tópico “How Facial Recognition Systems Work” (“como funcionam os sistemas de reconhecimento facial”) aparece a frase “Quem quer que acompanhe o seriado da TV “Las Vegas” já viu o reconhecimento facial em ação”. E segue adiante descrevendo como a coisa funciona.
Basicamente, o software recebe a imagem de uma face humana e nela identifica certos pontos de destaque, como cantos da boca, pupilas e coisas que tais. Depois, determina suas coordenadas relativas, anotando a distancia Inter pupilar, o afastamento entre os cantos da boca, largura do nariz, formato das maçãs do rosto, comprimento da linha do maxilar e outros parâmetros. Em seguida traça linhas entre certos pontos e determina seus ângulos, formando uma rede cujas posições relativas dos vértices podem ser rigorosamente codificadas, gerando uma estrutura única para cada face. Esta estrutura, em inglês, denomina-se “faceprint” (derivada da designação de “impressão digital” naquele idioma: “fingerprint”).
A tecnologia do reconhecimento facial ainda está engatinhando. Mas já existe uma página dedicada exclusivamente a ela, a “Face Recognition Homepage”, onde além de uma longa lista de grupos de pesquisas dedicados exclusivamente ao assunto (são dezenas deles), há uma especificamente destinada a discutir os dezessete algoritmos mais usados.
O assunto é sério. Muito sério. Tanto assim que a Universidade Estadual do Colorado, EUA, mantém uma página exclusivamente com o objetivo de criar e oferecer padrões dedicados apenas à avaliação da eficiência dos algoritmos empregados para reconhecimento facial, a “Evaluation of Face Recognition Algorithms”.
Portanto, se alguém tem dúvidas que a tecnologia de reconhecimento facial estará suficientemente madura para ser considerada tão confiável quanto a do reconhecimento de impressões digitais dentro de muito pouco tempo, melhor tirar o cavalo da chuva.
É só esperar.
E não muito.
