A infância
São tocantes a histórias de crianças como Jacquard que viveram uma infância humilde, comendo o pão que o diabo amassou e lutando duramente para sobreviver. Pois bem: definitivamente, não foi este o caso de von Neumann.
Seu pai, Neumann Miksa (ou Max Neumann, para quem prefere a grafia alemã) era um rico e influente banqueiro húngaro. Tanto que em 1913 comprou um título de nobreza (eram tempos interessantes, aqueles) embora jamais o tivesse usado. Já seu primogênito, János, legítimo herdeiro do título, o adotou e quando passou a grafar seu nome em alemão, agregou a ele o “von”, indicativo de nobreza. E alguns anos mais tarde, vivendo nos EUA (país do qual adquiriu a cidadania em 1937), adotou a grafia John von Neumann, com a qual se tornou famoso.
Max pôde garantir ao mais velho de seus três filhos uma educação primorosa, contratando durante toda sua juventude professores particulares sempre que o que lhe era ensinado na escola não bastava para satisfazer sua avidez de conhecimentos ? o que era a regra, não a exceção. O que ajudou bastante mas que, por si só, não transformaria o jovem Jancsi, como nosso herói era chamado afetuosamente na infância, em um gênio. O que o transformou em um gênio nascera com ele: seu amor pela matemática pura e a facilidade com que lidava com ela ? e com outros ramos do conhecimento igualmente abstratos ? desde a mais tenra idade.
De fato consta que aos seis anos ele executava cálculos mentais com dois números de oito algarismos, aos oito dominava os cálculos e aos 12 formou-se em matemática. Sua cabeça estava de tal forma voltada para esta ciência e suas derivadas que, com menos de sete anos, ao notar que a mãe, Margit (Margaret), sentada a sua frente, mantinha o olhar perdido na distância, imersa em pensamentos, ele lhe perguntou: “Mãe, o que você está calculando?” ? já que para ele, a única justificativa possível para aquele ar ausente era estar com a mente ocupada em um cálculo especialmente complexo.
Mas matemática não era seu único interesse ou habilidade. E, de fato, ao longo de sua vida meteu-se em diversos ramos da ciência pura e aplicada e sua genialidade foi reconhecida em todos eles.
Aos sete anos John já trocava com o pai algumas frases em grego clássico e com sua prodigiosa memória maravilhava as visitas à casa de sua família lendo trechos enormes, por elas escolhidos, de catálogos telefônicos e respondendo depois que número pertencia a quem, qual o número ou endereço de fulano ou beltrano ou recitando todo o trecho, que havia memorizado. Aos oito anos teve seu interesse despertado pela história e leu de cabo a rabo os quarenta e quatro volumes da História Universal que encontrou na biblioteca do pai.
O pequeno Jancsi era, para todos os efeitos, aquilo que se costuma chamar de “criança prodígio”. Mas sua família, embora respeitando as peculiaridades do jovem, tomou o cuidado de educa-lo como uma criança qualquer, desfrutando dos prazeres da infância e convivendo com amigos. O que fez com que John, ao se tornar homem feito, fosse considerado e respeitado como gênio, mas jamais deixasse de ser uma pessoa de convívio agradável e dedicado ao cultivo de amizades. De fato, as festas que dava em Princeton enquanto lá viveu tornaram-se legendárias.
Sua educação formal iniciou-se aos dez anos, quando se matriculou no Ginásio Luterano, o Fasori Evangelikus Gimnázium, considerado então uma das melhores instituições de ensino de Budapest (seus pais eram judeus, porém não praticantes, e ele teve uma formação bastante ecumênica). Para aprimorar sua educação formal na matemática, foi aceito como aluno particular pelo eminente matemático húngaro Gábor Szego, membro da Academia Austríaca de Ciências (vivia-se a época do Império Austro-Húngaro, uma união constitucional entre as duas monarquias que perdurou de 1867 até 1918, no final da Primeira Grande Guerra). Consta que a aptidão de John para a matemática era tão impressionante que, ao final da primeira entrevista com ele, Gábor Szego estava tão comovido que desatou a chorar.
A primeira publicação científica de John ocorreu pouco depois distou, ainda na adolescência: um trabalho sobre a determinação dos zeros de certa classe de polinômios, publicada pelo Journal da Sociedade Matemática da Alemanha em 1922. John von Neumann tinha então dezessete anos. Cinco anos mais tarde ele já havia assinado 27 publicações científicas e em 1929 atingiu a marca de 32 trabalhos publicados, na impressionante média de um trabalho de destaque por mês.
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