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Vinte anos

A invenção do B.Piropo

Cora Ronai é brilhante, versátil, de uma cultura abrangente, dotada de um humor finíssimo e dona de um texto extraordinário. Comecei como seu fã e tive o privilégio de passar a desfrutar de sua amizade sem jamais deixar de ser fã. Agora a acompanho por seu blog e Facebook e, ao contrário do meu, seu texto vem melhorando ao longo dos anos, se é que melhorar ainda é possível.

Mas, como eu, Cora não era uma profissional da informática. Era apenas uma usuária de computadores apaixonada por tecnologia. E talvez por isto mesmo suas colunas sobre o assunto fossem tão agradáveis de ler.

Em razão disto volta e meia, além das (muitas) respostas às inquietações dos leitores sobre seus computadores, programas e afins, a coluna trazia (poucas) perguntas. O que seria tal coisa? Como funcionava isto ou aquilo? Por que tal programa era assim e não assado?

Abusado, comecei a respondê-las por carta. E ela não reclamou de meu atrevimento. Pelo contrário: de quando em vez me telefonava para agradecer.

E assim passaram-se alguns anos, volta e meia eu escrevendo (cartas, em papel, seladas e enviadas pelo correio, pois a Internet ainda não estava ao alcance) e Cora telefonando.

Até que um dia, no pé da saudosa “Circuito Integrado”, Cora se despediu sem mais aquela, desejando felicidades aos leitores e dando adeus.

Mas que despautério! E agora? Senti-me, literalmente, seduzido e abandonado…

Algumas semanas depois recebi um telefonema da Cora me comunicando que havia sido convidada a editar um suplemento de informática para o jornal O Globo, o primeiro a ser publicado no Rio (havia dois em São Paulo, o da Folha e do Estadão, mas ambos eram voltados principalmente para o público corporativo; o do Globo foi o primeiro dirigido principalmente para micreiros). E quando eu respondi “Que bom, assim posso continuar lendo suas colunas” ela retrucou que esperava um pouco mais que isto. Que, com base no texto das minhas cartas já quase habituais, decidira me convidar para assinar uma coluna no caderninho (durante todo o tempo em que existiu, foi sempre assim que a equipe se referia carinhosamente ao InformáticaEtc. ? “o caderninho”).

Fiquei pasmo. Jamais poderia esperar uma coisa como aquela. Assinar uma coluna em um dos jornais mais lidos do país? E logo sobre informática, assunto que fugia à minha especialidade? Eu me sentia ? e me sinto ainda ? habilitado a escrever uma coluna sobre tratamento de esgotos, embora não acreditasse que viesse a atrair um número significativo de leitores. Mas sobre computadores?

Quando manifestei minhas dúvidas à Cora ela respondeu que eu não precisava me preocupar. A coluna seria dirigida a principiantes e bastaria que eu mantivesse o mesmo “estilo” ? se é que estilo ali havia ? das cartas que lhe enviava. E, afinal, se a coisa não desse certo, a qualquer tempo eu poderia parar.

Então me dei conta que naquele momento me era oferecida a oportunidade de preencher justamente a lacuna da qual tanto eu mesmo reclamava. Quem sabe meu conhecimento, embora longe daquele de um especialista, não seria suficiente para explicar a um leigo, evitando tanto quanto possível o jargão técnico, como as coisas funcionavam dentro de um computador?

Resolvi tentar.

O problema é que eu sou um engenheiro ambiental especializado em tratamento biológico de efluentes líquidos e, na época, já era razoavelmente conhecido nesta área, com diversos trabalhos publicados, consultor internacional, professor universitário e, digamos, com certo “nome na praça”. O que pensariam meus colegas ? e, sobretudo, os clientes de consultoria ? se eu começasse a assinar uma coluna sobre informática em um jornal de grande circulação? Melhor não usar meu próprio nome.

Por outro lado, já cinquentão, achei que estava meio fora de época para começar a adotar um pseudônimo.

Foi então que me lembrei de meu nome do meio, este “Piropo” um tanto esquisito, herdado da família de minha mãe e sempre meio rejeitado, do qual eu costumava grafar apenas a inicial nos meus cartões de visita e na autoria de trabalhos e publicações. Tanto era assim que, no meio técnico onde eu militava profissionalmente, pouca gente sabia o que aquele “P” significava.

Então, pseudônimo para que, se mesmo sem querer eu já dispunha de um nome, meu mesmo, que se não era novo em folha tinha pouquíssimo uso? Por que não adotá-lo, juntamente com a inicial de meu primeiro nome, para assinar as colunas?

Assim nasceu (melhor: foi inventado) o B. Piropo. Que semana passada completou vinte anos. Um jovem na flor da idade apesar dos cabelos brancos.

O resto a maioria de vocês já sabe.

Publiquei colunas no InformáticaEtc. do primeiro ao último número. No começo eram intituladas “Trilha Zero” e durante algum tempo foram publicadas simultaneamente com outra, a “MicroCosmo”. Mais tarde uma reforma editorial fez com que as colunas do caderninho passassem a adotar apenas o nome do titular, e a minha passou a se chamar “Coluna do Piropo”, já então publicada simultaneamente com uma seção de Dicas, também de minha autoria (todas elas, dicas e colunas, sem exceção, podem ser encontradas nas seções “Dicas” e “Escritos” do Sítio do Piropo).

O InformáticaEtc. durou quase exatos quinze anos. Guardo comigo todas as edições, da primeira à última. O último número do suplemento de informática do Globo com este título foi publicado em 17 de abril de 2006. E, nele, a derradeira “Coluna do Piropo”.

Já na semana seguinte o suplemento mudou de nome e de orientação editorial, passou a chamar-se InfoEtc, não mais publicou colunas e eu deixei de fazer parte da equipe. Algum tempo depois o suplemento foi substituído por uma revista distribuída com o jornal, cuja publicação também cessou já há algum tempo. Hoje, O Globo não tem mais suplemento de informática.

Por isto a menção a “teria” e “saudoso” no “tweet” da Cris De Luca, desde os primeiros tempos uma das mais brilhantes participantes da equipe ? que, quem se der ao trabalho de ler novamente seu “tweet“, perceberá que ela chama de “família” porque realmente era assim que nos sentíamos. Hoje, Cris não é só minha amiga: mais que isto, é quase uma filha. E como eu a acho a mais competente jornalista especializada que conheço ? na verdade é talvez a profissional mais competente que jamais conheci em qualquer ramo de trabalho ? além do afeto, desenvolvi por ela uma profunda admiração.

Neste meio tempo, a partir de janeiro de 2005, passei a escrever colunas semanais, primeiro no Estado de Minas (colunas “Técnicas & Truques” e “Pergunte ao Piropo”, publicadas às quintas-feiras; as mesmas colunas são republicadas cada segunda-feira subsequente no suplemento de informática do Correio Brasiliense), depois aqui neste ForumPCs. As primeiras podem ser encontradas na íntegra nas seções “Escritos/Coluna Técnicas & Truques” e “Pergunte” do Sítio do Piropo. As últimas na seção “Escritos/Coluna em ForumPCs”. Mais recentemente, a partir de dezembro de 2010, passei a colaborar também com colunas semanais para a seção Hardware/TechTudo do Globo.Com, cujos atalhos (mas não o texto, por questões contratuais) também estão disponíveis na seção “Escritos/Globo.com-TechTudo” do mesmo Sítio do Piropo.

Pois é isto. Vinte anos escrevendo sobre computadores, suas manhas e artimanhas.

Um quinto de século, mais de um quarto da minha vida…

E como escrever me proporciona um intenso prazer, pretendo continuar.

Quem não gostar, tem todo o direito de reclamar.

Mas, por favor, reclamem diretamente com a Cora Ronai que hoje, além da admiração e amizade, mui merecidamente desfruta de minha gratidão.

Afinal, foi ela que inventou o B.Piropo…

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