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Trans e dev: conheça a desafiadora trajetória de Evelyn Mendes

Natural de Porto Alegre (RS), onde foi a primeira transexual a retificar o nome no cartório do estado gaúcho sem necessidade de processo judicial, Evelyn Mendes é figura já conhecida pelas entrevistas que concedeu à mídia e pelas ameaças que sofreu na batalha contra o preconceito desde que assumiu oficialmente a transição de gênero. Sua trajetória é exemplo para muitos.

A realidade de Evelyn, hoje aos 44 anos de idade, vai muito além da dura estatística do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aponta expectativa de vida de apenas 35 anos para uma travesti e uma mulher transexual no País, em razão de assassinatos ou de atentados à própria vida.

Não ser mais um número parte dessa realidade já demonstra uma vitória da desenvolvedora. Porém, ao olhar para trás, sua trajetória não foi tão fácil como parece. Um dos desafios, sem dúvidas, foi obter a validação social em documento, revela.

Segundo ela, o amor pela TI surgiu quando ainda assumia a identidade masculina, há 17 anos. Seu primeiro contato com tecnologia foi na Rádio Gaúcha, onde trabalhava no departamento técnico. Em 2002, teve o primeiro emprego na área, seguindo uma vida aparentemente normal até aproximadamente 2013, quando a ideia de acabar com a própria vida veio à tona.

“Você já sabe desde criança se é trans, lésbica ou gay. Não é uma decisão. Tentei por 40 anos manter-me hétero, mas era uma tentativa de viver uma vida que não era a minha. Nada daquilo fazia sentido”, relata emocionada. Ela lembra também das repressões dos pais, que a negava o direito de expressar emoções por ser “atitude de menina”.

Ao trilhar o caminho da mudança de sexo, Evelyn tinha noção de que, a partir daquele momento, não teria volta e de que perderia muitas coisas que havia conquistado. A mudança de aparência impactou no seu trabalho como desenvolvedora sênior, e o ambiente corporativo mudou. Os colegas não a cumprimentavam mais e a evitavam nas reuniões. O clima piorou drasticamente, lembra. Um prenúncio de que a demissão estaria por vir. E ela efetivamente veio, com críticas sem fundamento vindas do gestor, e posteriormente pautadas por questões de intolerância pelo RH da empresa.

Ela deixou o posto, mas confiante do talento e do potencial que tinha como profissional. Não desistiu. Muitas entrevistas passaram, e ao fim de um ano desempregada, nenhuma empresa das que havia tentado retornou o contato, mesmo preenchendo os requisitos que cada vaga solicitava. Tinha noção de que o percurso seria longo e com muitos obstáculos.

Em 2016, a empresa norte-americana Thoughworks a contratou. Após seis meses de processo seletivo, Evelyn estava novamente empregada e feliz por estar em uma companhia que já alimentava uma cultura de diversidade conhecido por colaboradores que já lá estavam.

Com os inúmeros ‘testes de sobrevivência’ carimbados na trajetória da profissional, a atual desenvolvedora da DBServer, que auxilia organizações a realizar transformações digitais otimizando o legado e promovendo inovação, lista algumas dicas para transexuais e mulheres que lutam pelo espaço na área de TI.

“Prepare-se para se superar muito, porque é preciso ser muito boa tecnicamente; estudar bastante e focar em si mesma. Isso vai mostrar que você pode vencer”, aconselha. E, apesar o mercado ter mudado bastante, ela diz ainda que é preciso ter humildade para suportar muitas coisas. “É normal se desanimar no meio do caminho, mas nunca desista. Continue. Não podemos simplesmente deixar as coisas como estão. Se for para deixar as coisas como estão, nem saia de casa. Temos de dizer ao mundo que estamos aqui, que vamos brigar, lutar e que vamos vencer”, conclui.

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