Em meados de dezembro, um pico de luz em São Paulo, provocado pelo efeito cascata de uma queda de energia que afetou vários estados das regiões sudeste e nordeste, interrompeu as operações de diversos clientes por mais de duas horas. O problema? Falha na contingência do data center.
Hoje, a possibilidade de o Brasil vir a ter um apagão de energia por conta da redução dos reservatórios e crise do setor elétrico preocupa os empresários dos data center brasileiros, mas eles garantem que têm contingência para manter suas operações, caso aconteçam novos blecautes no País em 2013.
Os data centers estão entre os maiores consumidores de energia elétrica por operaram com infraestrutura de alta densidade. Mesmo com adoção da virtualização e processamento em nuvem que permite compartilhar servidores, essas empresas são grandes sugadoras de eletricidade. Como são responsáveis pela operação de muitos sistemas críticos de TI de diversos segmentos da economia que não podem parar, essas empresas precisam investir pesado em sistemas de contingência.
Caso eles fiquem fora do ar, muitas empresas terão seus negócios impactados, principalmente agora que as companhias estão terceirizando mais serviços de tecnologia e aderindo às aplicações que rodam na nuvem. Para elas, ter esquemas de energia alternativa e redundância é vital para manutenção das operações.
“Nossas operações estão preparadas para funcionar independente do
fornecimento das distribuidoras de energia”, garante Fabiano Agante
Droguetti, CTO da Tivit, que processa aplicações de 1,2 mil empresas,
sendo 300 das 500 maiores do País. Um de seus clientes é a Cielo, que
processa meios de pagamentos eletrônicos com cartão de crédito e de
débito.
Droguetti observa que a distribuição de energia no Brasil
é instável e apresenta micro interrupções com muita frequência, o que
obriga os data centers a terem planos robustos de contingência e evitar
que as operações sejam suspensas.
No caso da unidade de São
Paulo, localizada em Santo Amaro, por exemplo, ele informa que a empresa
conta com cinco geradores, sendo que dois funcionam como backup. Esses
equipamentos são alimentados por óleo diesel e estão preparados para
manter as operações da Tivit em operação por até sete dias, sem precisar
de reabastecimento.
“Nosso gerador leva cinco minutos para
entrar em operação. Nesses cinco minutos, nossos sistemas são
alimentados por nobreaks que oferecem uma autonomia de até 30 minutos”,
conta Droguetti. Como a energia da distribuidora é instável e apresenta
custos elevados no final da tarde, ele afirma que o data center chega a
utilizar os geradores praticamente todos os dias por algumas horas, o
que faz com que os equipamentos passem por manutenção constantemente.
Ainda
como parte do plano de contingência, Tivit se abastece de energia
convencional por meio de duas subestações da AES Eletropaulo. Embora a
distribuidora seja a mesma empresa, Droguetti informa que essa forma de
contratação dá mais segurança, pois se uma das redes cair a outra assume
a operação do data center automaticamente.
Segundo o CTO da
Tivit, o negócio de data center exige contingência. O investimento é
alto, mas ele diz que uma parada arranha a imagem da empresa. Assim como
a Tivit, o executivo acredita que todos os grandes centros de
processamentos de dados estejam preparados para enfrentar um eventual
apagão. “Em 11 anos de operação nunca ficamos fora do ar”, afirma. “Existe apreensão, mas o risco de apagão não é um problema”, diz o CTO.
Na Ativas, data center localizado em Belo Horizonte (MG), o risco de um apagão preocupa, mas a empresa investiu pesado em esquema alternativo. Antônio
Phelipe CTO da Ativas explica que a companhia já nasceu preparada para
enfrentar esse tipo de ameaça.
A empresa foi a primeira do seu segmento
na América do Sul a obter a certificação Tier III, concedida pelo
Uptime Institute, que garante disponibilidade de 99,98% de suas
operações. O grupo também é credenciado pela TÜV Rheinland, que comprova
que seus processos seguem as boas práticas.
A exemplo da Tivit, o
data center da Ativas é abastecido por duas subestações diferentes da
Cemig, distribuidora de energia de Minas Gerais, que detém 49% do seu
capital. “Às vezes não é nem o blecaute que gera falta de energia. A
queda de uma árvore pode interromper o fornecimento e ter dois caminhos
alternativos aumenta a redundância”, explica Phelipe.
“Usamos
duas redes distintas de energia e a troca é automática”, garante o CTO
da Ativas, mencionando que a companhia conta um esquema alternativo com
dois geradores, sendo um backup ligados por um sistema de barramento
para subir imediatamente, caso o primeiro falhe.
Ter uma
subestação própria de energia aumenta a contingência e dá mais segurança
para o data center. É para ter mais tranquilidade que a Level 3 está
investindo nesse tipo de projeto para alimentar o data center de São
Paulo, que hoje é atendido pela AES Eletropaulo.
Além da unidade
de São Paulo, a Level 3 conta com outras duas, uma localizada no Rio de
Janeiro e outra em Curitiba. Vagner Moraes, diretor da unidade data
center da companhia explica que a energia fornecida pela distribuidora
oscila muito. Ele contabiliza que em 2012 ocorreram cerca de mil
registros de interrupções da rede convencional, o que motivou a companhia
a investir na construção de uma subestação própria, que ficará pronta
dentro de 24 meses.
Problema com a legislação
De acordo com a legislação brasileira, as empresas não têm opção de contratar dois fornecedores de energia, uma vez que há apenas uma distribuidora por região. Essa situação obriga os data centers a recorrerem aos planos alternativos como construção de usinas próprias e contratação de duas linhas da mesma fornecedora.
“Temos que construir sites prevendo que não podemos depender do fornecimento externo de energia para manter nossas operações em funcionamento. Os mais modernos data centers são desenhados para ser autônomos. Temos que ter geradores a mais”, explica Paulo Sartório, gerente de marketing de produtos da Terremark.
Sartório garante que o data center da Terremark tem um plano contingência que permite que a empresa se mantenha até 72 horas em funcionamento em caso de apagão. “Estamos tranquilos porque nossas instalações foram construídas, levando em conta esse tipo de ameaça”, afirma ele.
Falhas podem acontecer
Outros data centers como Alog, Locaweb, T-Systems e Uol
Diveo também estão reforçando seus planos de contingência. Entretanto,
nem sempre ter esquemas alternativos de energia garante que as empresas
se mantenham no ar em caso de blecaute.
Segundo os especialistas, elas precisam ter pessoal treinado e fazer
manutenção constante dos geradores e ter bancos de baterias de
qualidade. Os equipamentos devem ser ligados constantemente e os planos
precisam ser revisados sempre para funcionarem em caso de incidentes.
Prova disso, justamente o último apagão que o Brasil sofreu em 15 de
dezembro do ano passado, quando um grande data center bem equipado, localizado
em São Paulo, ficou fora do ar e prejudicou clientes que tinham
aplicações de missão crítica hospedas em suas unidades.
Segundo especialistas, o motivo da falha não foi ausência de
tecnologia, mas dificuldade para colocar o sistemas em operação e
mantê-los em funcionamento após a queda do fornecimento de energia da
distribuidora. Os geradores e nobreaks foram ativados, mas entraram em
pane e o data center interrompeu as operações.
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