No Metrô
O comportamento do carioca ixperto é claramente distinto não apenas do adotado pelo homo sapiens sapiens como também, considerando seu grau de estupidez e antissociabilidade, do da maioria das demais espécies animais ? com a exceção, talvez, do Raphus cucullatus, ave incapaz de voar também conhecida como dodô, mostrada na Figura 3, cuja estupidez levou à completa extinção da espécie. Portanto, a forma mais segura de identificar seus membros é através da observação comportamental.
Para isto recomendo uma visita ao Metrô do Rio de Janeiro.
Deve haver alguma razão para isto mas, seja lá como for, é neste ambiente onde se manifestam mais claramente as, digamos, idiossincrasias comportamentais do carioca ixperto.
Começando, evidentemente, pela própria ação de entrar no carro do Metrô. Se você quer identificar sem possibilidade de erro uma manada de cariocas ixpertos, observe o que ocorre logo após a parada de um trem na plataforma. O carioca ixperto sempre tenta entrar antes que desembarquem os passageiros que pretendem sair.
Note que não importa se o carro vem cheio ou vazio, se é ou não hora de grande movimento, se há pessoas deficientes ou idosas precisando desembarcar, nada disto interessa. Assim que as portas se abrem uma récua (poupando uma ida ao Houaiss: “récua” é o coletivo de “jumento”) de cariocas ixpertos se arremessa violentamente para o interior do vagão atropelando os que pretendem desembarcar.
É claro que se aguardassem a descida dos que ali desembarcarão não somente facilitariam o próprio embarque como também teriam mais espaço no interior do vagão para se acomodar. É evidente que, para quem vai descer, a manada que tenta embarcar é um estorvo. É óbvio que a violência empregada pela horda que se lança em sentido contrário pode provocar acidentes e causar vítimas. Mas nada disto importa: o carioca ixperto tem que embarcar primeiro porque, presumo eu, acredita que entrando antes dos demais conseguirá vencer a disputa por uma acomodação mais confortável.
Eu já andei de metrô em Tóquio e Nova Iorque. Em Paris e Santiago. Em Boston e Atlanta. Em Roma e Lisboa. Em Munique e Cidade do México. Em Taipé e Chicago. Em São Paulo, para não usar apenas exemplos do estrangeiro. E em mais não sei quantas cidades. Em nenhuma delas vi comportamento semelhante. Não importa o grau de desenvolvimento, as características culturais, o tipo de civilização, nada: em todos os lugares não infestados pelo carioca ixperto espera-se primeiro que desembarquem para depois embarcar. Tanto quanto eu saiba, a compulsão de embarcar antes é um fenômeno que ocorre apenas no Rio e é decorrência exclusiva da infestação da população comum pela espécie predatória carioca ixperto.
Mas vamos adiante e ainda usando como exemplo o Metrô Carioca: em carro cheio, o carioca ixperto viaja sempre perto da porta. Não faz qualquer diferença onde ele embarcou e onde desembarcará. Não importa quantas estações medeiam entre a origem e o destino. Nem se há outras pessoas precisando desembarcar antes dele. Quando o vagão não está lotado e a viagem é longa, ele se afasta da porta em busca de um lugar para sentar ou se achega a quem, aparentemente, saltará antes dele ? afinal, convém lembrar, ele é “ixperto”. Mas se o trem está lotado e ele sabe que não conseguirá sentar, assim que embarca se aboleta ao lado da porta, de preferência encostado nela. E, nas paradas, não se abala. É incapaz de se deslocar um milímetro sequer para facilitar a passagem de quem pretende desembarcar exceto se for instado veementemente a fazê-lo, de preferência com um trompaço.
É óbvio que, se sua viagem for longa, ele mesmo desfrutará de maior conforto caso se desloque para o centro do carro onde, na medida em que os demais passageiros forem desembarcando, haverá mais espaço. É claro que agindo assim ele facilitará a saída e a entrada dos demais passageiros durante seu próprio trajeto. Mas o carioca ixperto nada disto leva em conta: viajando junto à porta, ao chegar ao destino seu próprio desembarque será mais fácil e é lá que viajará. Não importa que com isto ele dificulte o desembarque de centenas, talvez milhares de passageiros que para sair terão que circundar sua carcaça inútil postada no caminho da saída. Para ele ficará um pouco mais fácil descer do carro quando chegar ao destino. Para o resto, que se dane.
Evidentemente o carioca ixperto não respeita a preferência dos idosos, portadores de deficiência, gestantes ou mulheres com crianças de colo nos lugares a eles reservados nos carros do Metrô carioca. Senta-se neles na maior cara de pau e caso, por exemplo, uma senhora idosa venha a permanecer em frente a ele, disfarça, finge que não percebeu e, nos casos mais extremos, recorre ao telefone celular ? objeto que parece integrar o próprio organismo dos indivíduos da espécie, que os usam sempre aos brados não importa em que ambiente estejam ? para fazer de conta que não notaram a presença de quem detém, por lei, a preferência ao lugar. Se bem que, nestes casos, perguntar em voz alta se “o senhor por acaso é deficiente mental?” e acrescentar que este seria o único caso que justificaria a ocupação do assento já que não parece grávido, idoso ou portador de deficiência física, geralmente resolve. Pelo menos tem resolvido sempre que recorro a este alvitre: face a esta interpelação, o carioca ixperto resmunga mas cede o lugar.
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