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von Neumann II: o homem que sabia 28% da matemática

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O convite para participar do Instituto para Estudos Avançados (IAS, “Institute for Advanced Study“) de Princeton foi feito um ano depois da tomada do poder na Alemanha pelo nazismo. John von Neumann era de origem judaica e definitivamente não era aconselhável para ele permanecer em Berlin justamente naqueles tempos. Aceitou-o então com prazer e radicou-se definitivamente nos EUA. Algumas vezes ele é citado como um dos muitos refugiados políticos que trocaram a Europa Central pelos EUA. Como se vê, não foi este o caso. Ele emigrou porque, para ele, na época, os EUA ofereciam melhores perspectivas de alcançar uma posição acadêmica proeminente, como de fato alcançou. E o fez anos antes de se estabelecerem as circunstâncias que geraram as levas de refugiados. Tanto assim que durante os primeiros anos em que viveu nos EUA visitava frequentemente seja sua terra natal, a Hungria, seja a própria Alemanha, onde lecionou. Apenas suspendeu suas viagens quando o nazismo se enraizou neste último pais pois, como sabemos, era de origem judaica.

Foi somente alguns anos depois, pouco antes de declarada a guerra, que von Neumann, juntamente com seus colegas Kurt Gödel e Oskar Morganstern e por sugestão deste último, adquiriu cidadania americana. A este propósito conta-se um “causo” que nada tem a ver com von Neumann exceto por estar presente na ocasião, mas que é relatado aqui por mostrar bem como funciona a cabeça de gênios matemáticos, particularmente os versados em lógica. Consta que, no trajeto de automóvel para a entrevista que dariam às autoridades de imigração, Morganstern indagou aos colegas se necessitavam de algum esclarecimento sobre as perguntas que deveriam responder para garantir a cidadania. Gödel retrucou que havia estudado cuidadosamente a Constituição Americana e não tinha dúvida alguma. Mas, acrescentou, encontrara algumas inconsistências lógicas e pretendia questionar os oficiais da Imigração sobre elas. Resposta que causou consternação geral e imediata e provocou enfáticas recomendações para que, na entrevista, ele se ativesse apenas às respostas, jamais a perguntas.

Nos anos que antecederam sua ida para Princeton, von Neumann já se destacara como eminente matemático, especialmente nos campos da mecânica quântica, álgebra, teoria dos conjuntos e teoria dos jogos. Mas foi nos EUA que começaram suas atividades ligadas à informática e ao projeto dos primeiros computadores. Na verdade, foi a eclosão da Segunda Grande Guerra que causou a mudança. Sua tomada de posição contra a ameaça que o nazismo representava para a humanidade fez com que ele, literalmente, passasse da teoria à prática, evoluindo da confortável posição de um dos mais conceituados matemáticos teóricos para a arriscada, mas não menos bem sucedida, atividade de especialista em matemática aplicada. Foi seu envolvimento com o Projeto Manhattan (de triste memória por se tratar de fabricar o primeiro artefato nuclear, a Bomba A que foi lançada sobre Hiroshima e Nagasaki no Japão para pôr fim à segunda guerra mundial, mas que reuniu em Los Alamos a nata da ciência americana) que o levou a aplicar seus conhecimentos teóricos na fabricação dos primeiros computadores.

Em Princeton, de 1936 a 1938, von Neumann manteve contato com Alan Turing, uma mente absolutamente genial, criador do conceito de “máquina de Turing” e um dos principais pioneiros da informática moderna.  Mais tarde trabalhou com Presper Eckert e John Mauchly no desenvolvimento conceitual do ENIAC, um dos primeiros computadores modernos. Manteve assim contato com as mentes mais brilhantes da matemática e ciência modernas, com quem teve oportunidade de discutir conceitos e trocar ideias.

Não obstante, apesar de sua posição de destaque no cenário acadêmico e nos meios científicos, John von Neumann era um homem afável e grande apreciador de festas. Em suma, aquilo que, na sua época, se classificaria como “bon vivant” (hoje, talvez, “bandalho”). E teve a sorte de lecionar em Berlin na flor de seus vinte anos, justamente na época de ouro do circuito berlinense dos cabarés que ? dizem as más línguas ? ele conhecia todos.

Casou-se duas vezes. A primeira, em 1929 com Marietta Kovesi, com quem teve uma filha, Marina, em 1936 e divorciou-se em 1937. Mas só permaneceu solteiro um ano: em 1938 casou-se pela segunda vez, agora com Klára Dán, também húngara, que havia conhecido em suas seguidas viagens a Budapest e com quem viveu até o final de sua vida.

Sua segunda mulher também cultivava o gosto pela vida social. Diz P. R. Halmos no livro “The legend of John von Neumann”: “The parties at the von Neumanns house were frequent, and famous, and long” (As festas na casa dos von Neumann eram frequentes, e famosas, e longas).

Em 1955, dez anos após o final da Segunda Grande Guerra, constatou-se que John von Neumann sofria de um câncer no pâncreas que o matou um ano e meio mais tarde, aos 54 anos, encerrando assim uma brilhante carreira. Em seu leito de morte recorreu aos préstimos de um sacerdote católico para lhe administrar a extrema unção, o que causou mal estar na comunidade judaica, de onde provinha sua família. Ele contestou citando a “aposta de Pascal” (“Pascal?s Wager“).

Em seus últimos dias foi cercado por severo esquema de segurança, já que sendo conhecedor de altos segredos militares, havia o receio que os revelasse sob efeito da pesada medicação que recebia. Faleceu em 8 de fevereiro de 1957 e foi enterrado no Cemitério de Princeton, Nova Jérsei. A figura, obtida da Wikipédia, mostra a lápide de seu túmulo.

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Editorial IT Forum 365
15 anos ago

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