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Serendipidade em movimento: a trajetória consciente de Cristina Palmaka

Cristina Palmaka nasceu em uma família de contadores, começou a trabalhar aos 16 anos, ainda estagiária na Philips, e seus primeiros passos seguiram a trilha natural da família ao cursar Ciências Contábeis. Mas mesmo ali, entre planilhas e repetições, algo a inquietava. “Ficava pensando como automatizar aquilo tudo”, lembra. O desejo de transformar começou cedo e nunca mais saiu de cena. 

O primeiro flerte com a tecnologia veio quando seu irmão convenceu o pai a comprar um PC para casa, um investimento enorme para a época. Cristina, curiosa, aprendeu sozinha. Quando, já na Philips, pediram alguém que soubesse “mexer no computador”, ela estava pronta. Foi aí que começou a notar como pequenos acasos poderiam abrir grandes caminhos e passou a cultivar uma espécie de fé na serendipidade, os encontros improváveis que transformam uma trajetória. 

O marco seguinte veio com o MBA em Austin, nos Estados Unidos. Ali, à época berço da tecnologia de consumo, com Dell e Compaq começando a desenhar o futuro, Cristina mergulhou no digital quando ele ainda era promessa. Sua tese antecipava o impacto do varejo digital sobre o físico. Em 1998, voltou ao Brasil decidida a entrar nesse universo e entrou pela porta da unidade de consumo da Compaq, responsável por menos de 10% da operação. 

Leia também: Coragem maior que o medo: como Adriana Aroulho lidera a SAP América Latina

Mas foi exatamente ali, longe dos holofotes, que seu nome ganhou força. Cristina resgatou contatos, colocou os PCs nas vitrines do varejo físico, fechou parcerias com os primeiros provedores gratuitos de internet, como iG e AOL, e multiplicou mais de dez o faturamento do negócio. “Foi muito trabalho, mas também muito encantamento. Tinha propósito”, lembra. 

Pouco tempo depois, a unidade que ela liderava representava 60% da receita da empresa. Em outubro de 2000, foi promovida a diretora. Dois anos mais tarde, a HP anunciou a compra da Compaq, uma transição desafiadora que mexeu com pessoas e processos. Cristina ficou. “Foi um MBA na prática. Tínhamos que unir culturas diferentes, pessoas com trajetórias distintas. Foi difícil, mas me fortaleceu.” 

Aos poucos, deixou o universo de consumo e passou a liderar vendas corporativas, servidores e parceiros. Foi VP da HP no Brasil, depois assumiu a América Latina, com a filha Catarina ainda bebê em casa. “Foi um baque. Eu não queria ser promovida naquele momento. Me questionei. Mas meu marido me incentivou a testar. E deu certo.” 

Das corridas ao conselho, o tempo da escuta

Ao contrário da lógica acelerada do mercado, Cristina não pulava etapas. Cultivava o preparo silencioso. Desde 2010, quando ainda estava na SAP, começou a olhar para o futuro com calma. Fez cursos no IBCG, participou de comitês informais e, com o tempo, conquistou espaço em conselhos como Eurofarma, Cielo, Arcos Dourados, C&A e Telefônica Vivo. “Eu me preparei por dez anos. Sabia o que queria, e o que não queria. Não tenho perfil empreendedor, por exemplo. Mas queria continuar contribuindo, de outro jeito.” 

Em 2024, após uma transição planejada e respeitosa, deixou a presidência da SAP América Latina. Hoje, faz parte de quatro conselhos e vive um tempo novo: mais pausado, mais profundo, mais consciente. “Meus e-mails caíram radicalmente”, brinca. “Agora tenho tempo de qualidade com as pessoas que importam. Estudo muito. E sigo correndo.” 

A paixão pela corrida atravessa a vida da executiva há anos. Já correu diversas maratonas, a mais recente em Paris e o próximo destino será Roma. Corre sozinha, com o marido, com amigos, mas sempre como quem processa a vida em movimento. “Correr me ajuda a pensar, a respirar melhor, a tomar decisões.” 

E, mesmo com a nova agenda, não se afastou das mulheres da tecnologia. Pelo contrário. Faz mentorias, acompanha jovens profissionais, participa de programas de diversidade. “Demorei para falar sobre diversidade”, reconhece. “Na minha época, não havia referência feminina. Era tudo masculinizado, até minhas próprias competências femininas eu escondia. Mas quando vi o impacto que eu podia ter na vida de outras mulheres, entendi que precisava estar ali.” 

Ela não se considera pioneira, tampouco heroína. Mas inspira. “Não foi meu objetivo quebrar barreiras. Mas se minha história ajuda alguém a se ver nesse espaço, fico feliz.” 

Aprender a escuta

Questionada sobre sua maior conquista, Cristina não cita prêmios ou cargos. Fala de pessoas. “Ver quem passou pela minha liderança voar. Gente que foi estagiária e hoje é VP, CEO. Isso me toca de verdade.” 

O maior aprendizado? Escutar. “Escutar de verdade. Sem resposta pronta. Com genuína curiosidade.” Um aprendizado que vem da vida, das reestruturações, dos choques culturais, das noites mal dormidas no escritório durante aquisições pelas quais passou, mas também das corridas, dos silêncios e da maternidade. “Não dá para fazer outras coisas se você não deixa de fazer algumas coisas. Eu fiz escolhas. E, hoje, eu posso escolher o que quero fazer.” 

Cristina sabe que sua história é só uma, e que cada mulher tem a sua. “Não existe uma fórmula. Mas existe algo em comum: a coragem de ser quem se é, mesmo quando o mundo ainda não está pronto.” 

E, para ela, o mundo está em transição. “É o tempo da escuta. De aprender com o outro. E de acreditar, ainda que em silêncio, que algumas coisas simplesmente se encaixam quando a gente está pronta. É disso que se trata a serendipidade”, finaliza.  

*Texto originalmente publicado na Revista IT Forum.

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