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“Se a tecnologia for privilegiadora em vez de partilhadora, o futuro vai dar certo, mas qual o legado?”, provoca Cortella

Marcado por transformações tecnológicas, uma rapidez nunca antes vista, novas relações de trabalho, incertezas e questões político sociais intensas. A descrição feita parece dos dias atuais, mas poderia se aplicar igualmente ao século 19, durante a segunda Revolução Industrial.

Em ambas as épocas também, assumia a liderança da igreja católica, um Leão. O Papa Leão XIV, assim como o Leão XIII, enfrenta um mundo hoje, prestes a mudar. Esta foi a reflexão provocada pelo professor, palestrante e filósofo Mario Sérgio Cortella durante a aula de abertura do Filosofia da Tecnologia, promovido pelo Instituto Itaqui nos dias 16, 17 e 18 de outubro.

O conteúdo inédito “De leão a leão: da revolução industrial à inteligência artificial”, trouxe à tona a importância de pensar o uso da inteligência artificial (IA) enquanto ela muda nossa forma de viver, e não depois. “Temos hoje algo tão novo quanto a eletricidade e o uso do petróleo, e temos que pensá-la”, afirmou Cortella.

Fazendo um paralelo entre os dois líderes religiosos e seus momentos, o pensador relembrou as preocupações sociais que Leão XIII teve ao lidar diante das novas condições de trabalho que se apresentavam. Foi nesta época, inclusive, que o Papa inaugura uma doutrina social na igreja, defendendo a regulação da jornada de trabalho e, em parte, o voto feminino.

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“Esse Papa sabia que nem o socialismo e nem o capitalismo, organizado daquele modo, iam resolver o mundo, já que as pessoas eram controladas pelas máquinas. E temos que pensar o quanto isso ainda não acontece”, afirma.

O pensar a tecnologia, segundo o filósofo, pede que a sociedade e, em especial seus líderes, olhem para o lugar que esta tem ocupado no dia a dia e no imaginário coletivo. Em vez de deslumbramento com seus feitos, para que a IA seja realmente transformadora será preciso que se coloque novamente a ferramenta enquanto servidora da humanidade.

“Se tivermos uma tecnologia que seja privilegiadora em vez de partilhadora, o futuro que está a ser pensado até vai dar certo, mas qual o legado que estamos construindo com ele?”, provocou. Durante sua fala, o pensador lembrou ainda que a palavra evolução, não necessariamente significa melhor, mas, sim, mudança.

E, neste contexto que a IA, enquanto obra do ser humano, pode ser redentora ou aterradora. ”A ideia da máquina enquanto ameaça sempre existiu, de uma certa forma, mas agora nós temos algo a mais que é: isso pode sair do nosso controle e afetar as nossas comunidades.”

Longe de um olhar fatalista, o professor falou ainda sobre o equilíbrio entre um olhar triunfalista e catastrofista, necessário em meio a esta revolução da IA. Citando Pierre Dac, ele lembrou que as decisões tomadas agora, durante o que chamou de uma 4ª revolução industrial, são o legado a ser deixado para as futuras gerações e que o futuro é, na verdade, “o passado em preparação.”

“Neste momento, eu sempre lembro do meu orientador, Paulo Freire, que dizia ‘Se eu não fizer hoje aquilo que hoje pode ser feito e tentar fazer hoje aquilo que hoje não pode ser feito, dificilmente eu faço amanhã aquilo que hoje não pude fazer’”, finaliza.

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