A cadeia global de semicondutores entrou em um novo ciclo de reorganização. Pela primeira vez, a Nvidia deve assumir a posição de maior cliente da TSMC, superando a Apple, que historicamente ocupou esse posto com a produção de chips para iPhones, Macs e servidores. A mudança sinaliza uma inflexão estrutural no setor, impulsionada pela corrida global por infraestrutura de inteligência artificial.
Segundo informações da CNBC, estimativas de analistas indicam que, apenas neste ano, a Nvidia deve responder por cerca de 22% da receita total da TSMC, algo próximo de US$ 33 bilhões. A Apple, por sua vez, ficaria em torno de 18%, com aproximadamente US$ 27 bilhões. A troca de posições reflete não apenas volumes maiores de encomendas, mas também o valor agregado dos chips voltados à IA, significativamente mais complexos e caros de produzir do que os processadores tradicionais usados em dispositivos de consumo.
O avanço da Nvidia acompanha a aceleração do mercado de IA desde 2022, quando modelos generativos passaram a demandar capacidade massiva de processamento. Esse movimento se traduz diretamente nos números da TSMC. No quarto trimestre mais recente, a divisão de computação de alto desempenho (HPC), que inclui os aceleradores de IA, representou 55% da receita da companhia, ante 40% em 2022. Dentro desse montante, os aceleradores de IA já correspondem a uma fatia relevante das vendas totais.
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Enquanto a Apple segue crescendo de forma mais gradual, com expansão anual de um dígito, a Nvidia apresenta taxas muito mais agressivas. Projeções do mercado apontam crescimento superior a 60% em seu faturamento anual, reforçando o peso da empresa como âncora de demanda para os nós mais avançados de fabricação. Esse fator altera a lógica histórica da indústria, na qual a estabilidade das encomendas da Apple permitia à TSMC planejar grandes ciclos de investimento com previsibilidade.
A nova configuração também reforça o papel estratégico da TSMC como peça central do ecossistema global de chips. A companhia detém cerca de 70% do mercado de manufatura sob contrato e atende praticamente todos os grandes designers de semicondutores, incluindo AMD, Intel, Broadcom e Qualcomm. Ainda assim, a escala e a complexidade dos pedidos ligados à IA colocam pressão inédita sobre a capacidade produtiva da foundry.
Executivos da TSMC têm reconhecido publicamente esse desafio. A empresa prevê investimentos de até US$ 56 bilhões em capital neste ano, com foco em ampliar fábricas e tecnologias de ponta, embora os efeitos desses aportes só devam aparecer a partir de 2028. Ao mesmo tempo, a companhia adota um discurso cauteloso em relação a projeções de longo prazo, consciente dos riscos associados a ciclos de superinvestimento.
A relação com a Apple, embora perca protagonismo relativo, segue relevante. Os chips da companhia continuam sendo fundamentais para garantir volume e estabilidade, especialmente nos nós mais avançados, onde eficiência energética é crítica. Essa mesma eficiência, no entanto, tornou-se central também para a Nvidia, já que o consumo de energia impacta diretamente o retorno sobre investimento dos grandes sistemas de IA operados por provedores de nuvem.
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