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“Tem medo da IA aquele que fica grudado à sua racionalidade”, afirma Carla Tieppo, doutora em neurociência

Durante séculos, o ser humano acreditou que era sua racionalidade e capacidade lógica que o tornavam diferente dos demais animais. Seguindo essa linha de pensamento, a partir do Iluminismo, a sociedade desenvolveu ferramentas, como a inteligência artificial (IA), que hoje desafiam essa percepção e levantam questionamentos sobre o papel das lideranças nas organizações. É isso que defende a doutora em neurociência Carla Tieppo.

Em seu workshop na imersão Liderança de Propósito, promovida pelo Itaqui, a neurocientista abordou a nova fase da liderança, que vai além de comandar ou supervisionar equipes. “Nós temos que resgatar a ideia do porquê é necessário um líder. Você pode criar sistemas que desempenhariam esse papel de organização, inclusive com dados e de forma automatizada. O que falta, de fato, é essa inspiração vinda do exemplo”, provoca ela, em entrevista ao IT Forum.

De acordo com a doutora, o desafio deste novo cenário consiste em não buscar mais a liderança pela liderança, mas sim atuar como um modelo inspirador, que persegue seus próprios objetivos e conduz suas equipes em meio às marés turbulentas. O caminho para alcançar isso? Autoconhecimento. Reconhecer as próprias falhas e responsabilidades, questionando-se sobre qual tipo de liderança você realmente exerce com excelência.

O conceito remete a uma das maiores forças do ser humano, responsável por nossa trajetória enquanto espécie: a inteligência social. Trata-se da habilidade de nos relacionarmos e construirmos conexões, que vai além da inteligência emocional. A pesquisadora destaca que reavivar essa ideia é o que trará líderes ao século 21.

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A transformação já é percebida dentro das organizações. Com a chegada de novas tecnologias e os conflitos entre gerações, os gestores atuais vêm relatando dificuldades, especialmente em relação à geração Z. Uma pesquisa de 2024, realizada pela Sputnik, revelou que oito em cada dez líderes enfrentam desafios para conduzir ambientes multigeracionais, sendo a principal dificuldade apontada o desenvolvimento e engajamento das equipes (25%).

O estudo revela ainda que a coordenação de demandas e processos (66,8%) é o que mais consome o tempo dos líderes e de suas equipes.

Por outro lado, 91% dos profissionais liberais não têm interesse em se tornar gestores de pessoas, segundo uma pesquisa da Visier. Entre os principais motivos estão a expectativa de aumento de estresse e pressão (40%) e a falta de interesse pelas responsabilidades da liderança (30%).

“Às vezes, precisamos esticar um pouco a corda nas relações e, depois, se for necessário, recuar. Mas é importante ser mais flexível e não se prender a um papel da forma como se espera, simplesmente porque esse é o processo. O ser humano pode arriscar, ser criativo, tomar decisões que podem dar errado e, em seguida, voltar atrás. E está tudo bem”, defende Carla.

Na visão da neurocientista, o caminho escolhido por muitos líderes tem, inclusive, travado a inovação, que exige um processo de tentativa e erro. O desafio se torna ainda maior em ambientes onde as relações são criadas de maneira artificial e os interesses individuais prevalecem sobre os coletivos. A transformação proposta alteraria não apenas a forma de liderar, mas também a atuação dos liderados e as estruturas das organizações. “Não é fácil, mas é o único caminho, especialmente agora. Precisamos resgatar o suporte do ser humano ao ser humano”, finaliza.

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