Experiência da V8.Tech mostra que novo RH exige mudanças na liderança

Quando Carolina Martins assumiu a diretoria de Pessoas e Cultura da V8.Tech, a empresa nem chegava a rodar pesquisas de satisfação entre seus funcionários, mas o desejo era de mudança. Sua chegada veio com um pedido dos cofundadores da companhia Rodrigo Xavier e Graci de Melo: reestruturar a área de RH, buscando crescer o engajamento da companhia e fortalecer uma cultura com o pensamento voltado ao novo.

O desafio era grande. E, ao começar estruturando processos simples da área como bonificações, e promoções, ela percebeu que ele ficaria ainda maior. A executiva contou, durante seu painel no IT Forum Na Mata RH que a maior resistência era justamente o medo do novo e o fato dele vir das lideranças.

Mesmo com seus esforços, a desconexão entre a V8.Tech e seus funcionários era grande, com uma taxa de engajamento de apenas 30%. Portanto para chegar ao resultado esperado, seria preciso trabalhar aquele medo, a começar por seus líderes. Foram os ensinamentos que ela coletou desse processo nos últimos quatro anos que foram compartilhados durante sua apresentação no evento.

Segundo Carolina, a primeira etapa foi identificar quem, apesar do medo, estava disposto a fazer parte da transformação. Para isso, a empresa contou com um auxílio de uma consultoria que, em seu processo de análise mostrou que a falta de engajamento vinha de cima, com 33% das lideranças presentes não acreditando na mudança que estava sendo instituída. Diante dos dados, a saída era abrir espaço para pessoas que estavam dispostas a construir a nova fase da V8.

Quanto aos outros 70%, Carolina conta que o trabalho foi de abertura e vulnerabilidade, ajustando o papel do RH para um guardião da Segurança Psicológica. “Nós descobrimos que as pessoas não resistem à mudança e sim a não serem ouvidas durante a mudança”, compartilhou. Foram quatro anos de reuniões e acompanhamento intensivo, preparando e realinhando com as equipes presentes. O esforço, no entanto, compensou. Após a adesão das lideranças, o engajamento da companhia subiu para 98%, como um todo.

A CHRO atribuiu a mudança também à iniciativas como o Fala Techer, programa criado para trazer mais sinergias entre as equipes. Nele, uma vez por semana, algum colaborador traz uma aula de um conhecimento que domine, para compartilhar com os colegas. “Nós temos falado muito de IA ultimamente, mas também tem gente falando sobre esporte, culinária, são diversos temas. O importante é dar a voz para eles”, completa.

Leia mais: RH e IA: admitir a incerteza é o primeiro passo para a reinvenção nas empresas

Liderança por orquestração

Para Carolina Laboissiere, diretora regional da The Chief of Staff Association (CSA) no Brasil e América do Sul, cases como o da V8.Tech mostram uma nova forma de liderar, agora não mais regida pelo comando e controle, e sim pela orquestração. A executiva também trouxe sua visão para o evento, com uma apresentação sobre a evolução do papel do líder. Em sua fala, Carolina destacou a importância de transitar para esta nova forma.

“O comando e controle funciona para previsibilidade em contextos contidos, mas isso não existe mais no mundo de hoje e por isso que conflita tanto com as novas gerações. Além disso, pode ser custoso para a saúde e o tempo do CEO”, afirmou.

Segundo uma pesquisa feita em 75 países pela CSA, os CEOs ‘comandantes’ tendem a centralizar decisões, sobrecarregando-se durante períodos de expansão e gerando iniciativas soltas sem execução clara. Nesse sentido, os próprios executivos relatam uma incapacidade de acompanhar tudo e a liderança por orquestração se apresenta como uma alternativa para liberar tempo para pensamento estratégico.

Para isso, a nova forma teria como prioridade pessoas, interfaces e cadência, respectivamente. Nesse sentido, o RH atua alinhado com diretorias, mantendo uma visão 360 dos gargalos organizacionais, mas agora ainda mais voltado ao humano e fazendo a ponte entre estratégia e execução, já que ambas tem hoje uma nova integrante: a inteligência artificial (IA).

“Nesse cenário em que estamos vivendo, é importante lembrar que, apesar dos avanços em inteligência artificial, o papel do líder continua central. Talvez até mais do que nunca, diante da instabilidade que estamos vivendo até essa nova tecnologia assentar.”

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