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Empresas de software enfrentam crédito mais caro e maior desconfiança com avanço da IA

O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) começou a produzir efeitos concretos no mercado de crédito para empresas de software. Em meio ao receio de que a tecnologia transforme modelos de negócio e pressione margens, companhias do setor têm adiado emissões de dívida, enquanto bancos e investidores elevam exigências e custos de financiamento.

Segundo reportagem da Reuters, assinada por Matt Tracy e Saeed Azhar, fontes do mercado afirmam que operações previstas foram suspensas tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. A cautela ocorre em um contexto de spreads mais amplos, maior precificação de risco de inadimplência e queda relevante nas ações do setor.

O índice S&P 500 Software & Services acumula recuo de cerca de 20% no ano, refletindo a reavaliação dos investidores sobre o impacto potencial da automação baseada em IA em empresas tradicionais de software.

Empréstimos alavancados sentem mais a pressão

O efeito é mais visível no mercado de leveraged loans do que nos títulos high-yield. De acordo com dados citados pela Reuters, o setor de tecnologia representa cerca de 17% do estoque total de empréstimos alavancados nos Estados Unidos, somando aproximadamente US$ 260 bilhões. Desse universo, 60% estão ligados a empresas de software.

Segundo análise da Reuters, já no mercado de bonds high-yield, a exposição é menor. Companhias de tecnologia respondem por cerca de 6% do total, ou aproximadamente US$ 60 bilhões, sendo que a maior parte também está concentrada em software.

Analistas do Fitch Ratings destacam que a concentração do setor em empréstimos alavancados amplia a sensibilidade às mudanças de percepção de risco. Segundo Brendan Hoelmer, responsável por pesquisa de default nos EUA na agência, o volume de vencimentos em 2026 e 2027 exigirá atenção redobrada, sobretudo entre empresas com classificação de crédito mais baixa.

Estimativas do Morgan Stanley indicam que metade dos empréstimos do setor de software possui rating B- ou inferior, patamar considerado mais vulnerável a inadimplência.

IA já entra no cálculo de risco

Para estrategistas do UBS, o risco de disrupção provocado pela inteligência artificial deve ganhar peso ao longo de 2026 e início de 2027, especialmente em setores com maior necessidade de refinanciamento. Em um cenário de transformação mais rápida do mercado, a instituição projeta que a taxa de defaults pode subir entre 3% e 5%, acima das expectativas atuais de 1% a 2%.

Leia mais: Liderar na era dos agentes é o novo desafio da engenharia de software

Na prática, isso significa que investidores começam a exigir retorno maior para compensar a incerteza. Bancos responsáveis por estruturar novas operações também enfrentam maior ceticismo ao apresentar ofertas ao mercado.

Além de juros mais altos, operações futuras tendem a incluir cláusulas contratuais mais rígidas. Entre elas estão os chamados maintenance covenants, que obrigam empresas a manter determinadas métricas financeiras, como a relação entre dívida e lucro, dentro de limites pré-estabelecidos.

Operações adiadas e mercado em compasso de espera

Desde o fim de janeiro, diversas operações no setor de tecnologia foram canceladas ou adiadas. A provedora europeia de serviços digitais Team.blue postergou a extensão de um empréstimo bilionário e a reprecificação de outro financiamento, de acordo com fontes citadas na reportagem.

Outro teste importante para o mercado será a captação de US$ 5,3 bilhões que deve financiar a aquisição da Press Ganey Forsta pela Qualtrics. Investidores acompanharão de perto a receptividade da operação, vista como termômetro para o apetite por risco no setor.

Apesar disso, o calendário de vencimentos imediatos não é expressivo. Apenas 0,5% dos empréstimos do setor vencem neste ano, enquanto cerca de 6% têm prazo final em 2027, segundo a Fitch. No mercado high-yield, os números são semelhantes, com 0,7% vencendo em 2026 e 8% em 2027.

Ainda assim, agências como a Moody’s Ratings alertam que empresas com rating mais baixo enfrentarão maior risco de refinanciamento e default a partir do próximo ano.

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