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Computação quântica é revolucionária, mas ‘não para qualquer coisa’

Existe um esforço científico e tecnológico grande, tanto da indústria como da academia, e a computação quântica aos poucos se torna uma realidade. Apesar de ainda não ser simples construir algoritmos para rodar nessas máquinas (assim como não é fácil construir os próprios computadores quânticos!), já somos capazes de supor quais aplicações serão realmente vantajosas para usá-los e quais continuarão sendo feitas, e com eficiência, por computadores tradicionais.

Ou seja, a computação quântica não vai revolucionar tudo que foi feito na área de tecnologia da informação até hoje, mas trará ganhos de performance exponenciais para a resolução de problemas até então inacessíveis.

Essa é a mensagem do professor Paulo Nussenzveig, professor titular do Instituto de Física e pró-reitor da Universidade de São Paulo (USP). O acadêmico abriu a agenda de conteúdo do IT Forum Trancoso, que começou nessa quinta (21) no anfiteatro do Club Med, na Bahia.

“Tanto IBM como Google preveem milhões de qubits [em computadores quânticos] até 2030. Pode ser um pouco otimista, mas quando se chegar a isso estaremos em um domínio de algoritmos com eficiência maior para problemas de interesse clássico”, ressaltou Nussenzveig, referindo-se às unidades de processamento presentes nesse tipo de arquitetura.

“Se você pensar no tempo que leva para uma pessoa se formar, já deveríamos ter começado a formar e capacitar gente [para trabalhar] nessa área”, lembrou o professor, ressaltando a importância de iniciativas de formação e capacitação para tecnologias emergentes, inclusive quânticas.

Aplicabilidade

As oportunidades de aplicações para a computação quântica estão especialmente em setores que dependem de simulações da natureza. “Simular a física talvez seja a maior aplicação que temos hoje para computação quântica. A natureza é quântica. A complexidade cresce conforme aumenta o tamanho do sistema [simulado] e isso afeta [os computadores tradicionais]”, explicou ao auditório lotado.

Sensores quânticos são particularmente úteis na agricultura de precisão do futuro, por exemplo, considerando uma demanda global por alimentos crescente e o papel do agronegócio brasileiro na determinante tarefa de alimentar o mundo.

“Em um estudo a PwC mostrou que a necessidade de produção de alimentos até 2050 deve crescer 50%. O Brasil pode e deve responder por 40% dessa demanda. Então é responsabilidade nossa com o mundo alimentá-lo. E como vamos fazer isso? Desenvolvendo tecnologia de produção de alimentos”, ressaltou.

Outra aplicação que deve ganhar força com a computação quântica é a inteligência artificial, lembrou Nussenzveig. Isso porque a capacidade de trabalhar com conjuntos de dados e ensinar padrões é bastante latente.

Muito embora o desenvolvimento e a posse de computadores quânticos não sejam considerados pelo professor um fator determinante para que um país possa aproveitar a tecnologia, por outro o desenvolvimento de aplicações e algoritmos pode ser determinante. Enquanto potências como China, EUA e União Europeia já possuam programas estruturados de incentivo a esse desenvolvimento, o Brasil sequer aparece nesse mapa.

“Existe a possiblidade de auferir lucros sem construir computadores quânticos”, disse o professor, mas também chamou a atenção para “a importância de aumentar o conhecimento público sobre a ciência quântica e as tecnologias quânticas.”

Segundo ele, o Brasil tem uma comunidade acadêmica bastante forte e engajada com o desenvolvimento da computação quântica – inclusive muitos pesquisadores brasileiros assinam trabalhos de pesquisa importantes sobre o tema. No entanto computação quântica ainda não pauta o debate público ou o desenvolvimento de políticas públicas no país.

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