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Marina Silva: “sustentabilidade é luta integradora”

A crise vivenciada pelo Brasil não e exclusividade do País, ainda que seja verdade que muitos dos problemas locais sejam causados por incompetências locais. Nos cinco continentes, a sociedade de maneira geral experimenta o que Marina Silva chama de crise civilizatória, por unir ao mesmo tempo problemas ambiental, econômico, social, político e de valores. Tudo isso traz um desafio imenso de mudança cujo caminho é difícil de ser traçado, visto que não existe uma solução pronta para tal. No entanto, é possível dar um direcionamento por meio de uma visão estratégica e um projeto de País, algo que sempre faltou na política brasileira.

“Todos estamos buscando dar uma resposta a uma grande crise de valores, política, moral e isso não só no Brasil, embora aqui temos o princípio do absurdo. Isso acontece quando algo alcança seu limite, o ultrapassa e se transforma em seu contrário. Estamos vivendo uma crise no Brasil que chega a essa dimensão, mas é uma crise que o mundo está vivendo, e vem forte desde 2008, agora com deslocamentos humanos na Europa entre outros problemas, são todos indicadores de algo dramático”, comentou Marina, ao falar para uma plateia de mais de 40 lideranças do setor de TI, entre outros convidados, durante a primeira edição do Leadership Academy, organizado pela IT Mídia e que, neste ano, tem como tema sustentabilidade nos negócios.
Ex-candidata à Presidência e ex-senadora, a fundadora da Rede de Sustentabilidade tem uma história de superação e persistência que a permite avaliar as situações sob outra perspectiva. Além disso, sua vida intimamente ligada ao ecossistema amazônico a torna uma referência em discutir sustentabilidade, não apenas do ponto de vista ambiental, mas atingindo outras esferas deste debate como a social.
Enquanto falava para um auditório cheio, Marina mesclava informações sobre desmatamento, economia, crise hídrica e sobre o papel fundamental do exercício da liderança em momentos de extrema dificuldade como o atual. Ela lembrou, por exemplo, de uma pesquisa que mostra que 1% da população detêm quase 50% da riqueza de todo o mundo. “Numa sociedade com 7 bilhões de pessoas, temos um problema econômico a ser resolvido, sem falar em outras questões que vocês acompanham e os especialistas correm atrás. Olhem o que acontece com Grécia, Espanha. Temos uma crise social profunda, 2 bilhões de pessoas vivem com menos de US$ 2 por dia. Isso é não ter acesso a uma vida digna.”
Nesse vai e vem da economia, os menos desfavorecidos, não importa se em uma grande cidade ou em uma aldeia remota, é o que mais sofre. Essas pessoas, ressaltou Marina, vivem uma crise econômica e não recebem uma fração do respaldo que grandes bancos e empresas recebem por suas crises. Os pobres são encarados como crise social e isso já os distancia totalmente dos benefícios colhidos por grupos financeiros nos pacotes de ajuda em momentos de crise. A Europa foi o exemplo mais recente com bilhões injetados no sistema financeiro ao mesmo tempo em que uma crise de imigração bate à porta.
E em meio a tudo isso, o mundo convive com uma grave crise ambiental. “O problema mais grave da crise ambiental são as mudanças climáticas. Teremos mais de 190 países na França discutindo o orçamento de carbono da humanidade. Teremos que nos conformar com o orçamento de carbono para não ultrapassar o aumento de temperatura. As propostas, inclusive do Brasil e Europa, que teve a mais ambiciosa, são insuficientes”, alertou Marina, lembrando que o modelo de sociedade individualista e consumista pregado pelos Estados Unidos não tem espaço num mundo, ou seja, não há planeta que aguente.
“Precisamos nos reconectar com o princípio da realidade para agirmos corretamente. O índio mais isolado está dentro da crise ambiental, ele também está na econômica. A Agenda Brasil, proposta pelo presidente do senado, queria tornar papel do congresso demarcar terra indígena, como não tem índio no congresso, nunca mais teríamos terra indígena. Temos que usar o princípio da precaução. A sustentabilidade não é feita por um grupo ou partido, mas por todos, é uma luta integradora da civilização”, pontuou.
Em meio a tantos temas, ela criticou o ideal do “ter” da sociedade atual, que força as pessoas ao consumo como único caminho à felicidade. Marina lembrou que essa visão de sentimento de plenitude se altera ao longo da história e citou exemplos como dos gregos, para quem plenitude estava ligada à liberdade e sabedoria, enquanto que, na Idade Média, o ideal era ser santo, ainda que se cometia diversas barbáries em nome da santidade. “Criamos o buraco negro do consumo, não estou falando do consumo necessário, esse não está em questão. Não se trata de voltar para cavernas, mas não temos que nos sentirmos felizes pelo que temos, mas pelo que somos, porque o planeta limita e o ser humano tem capacidade de desejo infinita. Não dá para todos terem carros em São Paulo ou Minas Gerais ou todos terem barco na Amazônia. Os 7 bilhões de pessoas não podem desejar ter infinitamente.”
Em uma de suas reflexões, Marina lembrou que sempre perguntamos as crianças o que elas serão quando crescer, ou seja, o “ser” e não o “ter” está em nossa raiz e é preciso se reconectar à ela. O estado atual é de emergência e na emergência não tem cor, partido, situação ou oposição, todos precisam estar juntos. Nesse sentido, uma liderança coerente e que consiga dialogar propostas com os mais diversos setores sai vitoriosa e isso vale para vida política ou privada.
“Qual é a nossa crença? Que essa crise nos ensine que é a de sermos socialmente prósperos, justos, ambientalmente sustentáveis e politicamente sustentáveis. Um dia, vocês sonharam em ter uma empresa e isso começou com um ideal. É o momento de sermos arco e flechas ao mesmo tempo”, provocou.

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