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Interesses isolados e falta de colaboração tardam Brasil conectado

Enquanto estudos apontam para um cenário mundial de 50 milhões de dispositivos conectados até 2020, a concretização de uma era de conectividade no Brasil esbarra em interesses particulares e modelos pouco favoráveis à colaboração entre os setores que poderão viabilizar as transformações desejadas. Tais questões foram debatidas semana passada, em São Paulo, por representantes da esfera pública e da iniciativa privada. Entre eles estavam Luiz Fernando Furlan, ex-ministro do Desenvolvimento da Indústria e Comércio, e Antonio Carlos Valente, presidente-executivo do Grupo Telefônica no País.

O encontro, promovido pela everis, centrou-se nas oportunidades e nos atuais obstáculos à expansão da conectividade no País, apontando as possibilidades de integração dos setores e a transformação dos modelos de negócio vigentes em prol do desenvolvimento sócioeconômico brasileiro.“Existe um ambiente extremamente favorável à inovação, e se considerarmos que somos campeões em ineficiência sistêmica, em desperdício, a conectividade cria possibilidades de grande aumento de eficiência e competitividade”, disse Furlan.

Ao grupo de debatedores, juntaram-se ainda Wilson Ferreira, CEO da CPFL Energia e integrante do Conselho de Administração da ONS (Operador Nacional do Sistema), e Aldo Fabio Garda, coordenador de Tecnologia da Informação e Comunicação da Secretaria de Gestão Pública do Governo do Estado de São Paulo.

A seguir, leia alguns dos principais trechos do debate, que transitou pelos padrões de tributação sobre serviços essenciais, responsáveis por viabilizar a geração da conectividade, o salto para conexões máquina a máquina (M2M) e o avanço da automatização da rede de energia (smart grid), ressaltando os principais setores envolvidos nessa transformação: tecnologia e telecomunicações, utilities, saúde e indústrias em geral.

 

>> EXPANSÃO DA BANDA LARGA E TRIBUTAÇÃO

Valente: “O problema que estamos vendo no Brasil, hoje, é de modelo de negócios. O Brasil é um dos países que tem a maior taxa sobre serviços de telecom do mundo. Além do imposto sobre consumo, existem as taxas de fiscalização. No tráfego máquina a máquina, a margem das empresas de telecom está em torno de 30% a 35%, o que significa que cada ativação geraria de R$ 3 a R$ 3,5 ao mês de margem. O problema é que as taxas contabilizam R$ 28 no primeiro ano, quando seriam necessários nove meses para se pagá-las, e cinco meses nos próximos anos. Se tivermos esse tipo de taxa, teremos um problema de viabilidade de oferta. Trata-se de obstáculos que são muito difíceis de superar, mas essenciais para essa nova fase que conectará bilhões de dispositivos no mundo inteiro. O maior desafio é fazer essa conta ficar de pé”.

“O plano nacional de banda larga tem uma série de virtudes e deve ser considerado como prioridade nacional, mas precisa ser trabalhado de forma a criar incentivos. Temos os setores de energia elétrica e de combustíveis, por exemplo, que suportam o Estado e podem trazer inovação, mas temos concedido exoneração de impostos para outros de menor potência, para criação de plantas industriais. É isso que queremos fazer? Precisamos acelerar, e para isso é necessário reconhecer que temos sérios problemas na cadeia produtiva. Falamos de impostos no consumo, mas sofremos do mesmo problema. Quantos foram os projetos financiados pelo Fust [Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações]? Esse valor tem sido utilizado para redução do déficit público, enquanto poderia fazer aplicações de recursos conforme o que foi definido inicialmente”.

Aldo: “A conexão precisa chegar a comunidades menores. Existe uma discussão com a Anatel para liberação de algumas frequências, pois uma abrangência ampla tem que ser por meio de conexão sem fio”.

Furlan: “O Brasil é um dos poucos países do mundo que tributa bens de capital. Tivemos a desoneração para computadores, com redução de tributos na ordem de apenas 12% (PIS e Cofins), e assim o País se tornou o terceiro maior mercado de PCs do mundo. O mercado cinza encolheu profundamente. Tudo isso em um contexto de que a arrecadação da união bate recordes todos os meses, apesar das desonerações. A arrecadação sistemática cresce mais do que o PIB”.

 

>> COLABORAÇÃO, INOVAÇÃO E MODELOS DE NEGÓCIOS

Valente: “Todo o ano, investimos R$ 20 bilhões na construção de redes e outras melhorias. O mercado de telecom é o mais competitivo do mundo e vai haver a entrada de um quinto operador, em 2012. Existe uma máxima no setor que diz “matai-vos uns aos outros”, mas isso está mudando. Chegamos a uma maturidade de mercado, quando se começa a criar cooperação. E o smart grid é uma oportunidade gigante de colaboração entre setor elétrico e o de comunicações”.

Ferreira: “A colaboração é uma marca do setor de energia, as empresas definem juntas padrões de operação. Mas isso não é restrito a companhias do segmento. A colaboração está no DNA do setor de infraestrutura. Hoje, não administramos o consumo de energia e de água, e o smart grid nos traz a perspectiva de gestão do consumo. Isso acaba contaminando, de forma positiva, todas as demais indústrias. Temos 65 milhões de consumidores, teremos que trocar 65 milhões de medidores. Mas a infraestrutura de telecom é que torna a conectividade viável, talvez esse seja o maior desafio.

Valente: “Quando se tem tudo conectado, é preciso uma mudança de modelo de negócios. Nada disso vai prosperar se você, como organização, não tiver a visão de inovação. Recentemente, fizemos uma mudança para criar como destino final uma empresa completamente diferente, que se preocupa apenas com conectividade. Para isso, selecionamos algumas frentes de inovação, como tráfego máquina a máquina, serviços financeiros, aplicações eletrônicas de saúde, segurança eletrônica e segurança da informação, entre outras.

 

>> O QUE ESPERAR DOS PRÓXIMOS ANOS

Valente: “Nos últimos 12 anos, tivemos um grande salto. Em 1998, quando o governo resolveu mudar o modelo de prestação de serviços, havia 20 milhões de consumidores de serviços de telecomunicações; hoje, são 280 milhões de usuários e a telefonia móvel está em quase quatro mil municípios. A fase em que estivemos até agora foi a de conectar pessoas. Daqui para frente, o estágio é de conexão de marcas, empresas que começam a definir projetos estratégicos, para que passemos do quantitativo global de unidade de pessoas conectadas para a fronteira de dezenas de bilhões de conexões, com o tráfego máquina a máquina”.

Furlan: “A conectividade consegue mudar as avenidas do poder, e isso encontra uma resistência extraordinária. Despachante no Brasil é uma atividade regulamentada e faz o que você deveria ter direito de fazer, mas que diretamente não consegue. A máquina vai responder automaticamente à sua demanda, e com isso imagino que se reduza também o retrabalho e o desperdício, porque haverá metodologia de entrada de demanda para que a resposta seja imediata. Ao mesmo tempo, existe a perda de privacidade”.

“As pessoas têm buscado qualidade de vida fora dos grandes centros comerciais. Estamos proporcionando uma descentralização, e com isso a inovação pode estar esparramada com pessoas trocando ideias em rede, sem fronteiras. Se compararmos o Brasil com os demais países do Bric, veremos que temos vantagem, primeiro porque somos de uma cultura ocidental. Depois, porque temos 12 vizinhos e não temos inimigos, somos um País de um idioma só, que é autossuficiente em energia, em alimentos, que tem uma imprensa democrática. Temos todos os recursos e, no entanto, estamos atrasados só em relação à velocidade. Ter, hoje, 100% das crianças em idade escolar nas escolas, isso somado à conectividade da banda larga e o acesso à informação pela internet, irá transformar uma geração”.

 

 

 

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