Enquanto o poder público, em diferentes níveis, promove licitações e editais para equipar alunos e professores do ensino básico com tablets, computadores, lousas digitais e internet, iniciativas do setor privado investem em medidas menos vistosas, mas mais exitosas para melhorar a qualidade da educação, como a formação em práticas pedagógicas para ampliar e qualificar o repertório dos educadores na sala de aula.
É esse o objetivo de editais de seleção como o lançado recentemente pela Fundação Tide Setúbal, em São Paulo, que oferece apoio de R$ 4 mil para o educador participante da formação desenvolver e aplicar um plano educativo.
A ação da fundação é restrita, pois dirigida a educadores de organizações da sociedade civil que trabalham em comunidades carentes com crianças, adolescentes e jovens no contraturno escolar.
Já o público-alvo das iniciativas governamentais é o universo das escolas públicas brasileiras com toda a sua complexidade e diversidade, características que por si só oferecem risco para os resultados.
Uma ferramenta tecnológica com acesso à internet certamente amplia os recursos pedagógicos de um professor bem preparado, mas que aproveitamento fará de um tablet ou lousa digital o docente carente de boa prática pedagógica, ainda que ele domine o funcionamento do equipamento digital?
Qualquer um se sente mais valorizado, e possivelmente mais motivado, trabalhando em um ambiente com boa infraestrutura, que é outra urgência na escola pública brasileira, uma questão puramente de cidadania.
Mas a prioridade das prioridades em educação está no professor e na prática pedagógica, detentores do melhor potencial para dar vida inteligente a velhos e novos recursos de ensino.
Andreia Saul, diretora executiva do Ficas, organização sem fins lucrativos fundada há 15 anos e encarregada da formação de educadores na ação promovida pela Fundação Tide Setúbal, ilustra o argumento.
Conta histórias de educadores que usam o momento da “roda de conversa” para dar bronca nos aprendizes, quando esse recurso pedagógico deve ser aproveitado para estimular a reflexão, o raciocínio, a argumentação e o debate entre os alunos.
Ou do professor que promove uma aula-passeio apenas para “passear” mesmo no entorno da escola, sem levar os alunos a elaborar registros e com eles construir conhecimentos.
Em cursos de formação como o do Ficas, esses profissionais aprendem a desenvolver um plano educativo a partir de um diagnóstico, uma filosofia de trabalho, metodologias e as estratégias para alcançá-las.
Funciona como uma espécie de passo a passo teórico e prático para o educador aplicar, seja com o recurso de um tablet, um jogo de bola, um vídeo ou a leitura de um texto.
Na Associação Labor, a gerente de projetos Marlene Rodrigues orienta o mesmo tipo de ação na escola pública. Diretores e professores se envolvem na elaboração, execução e avaliação de práticas pedagógicas.
Sem iniciativas como essas, provavelmente o educador pouco acrescentará ao crescimento do aluno no papel essencial de mediador do conhecimento e animador da curiosidade para aprender.
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