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E-learning sai da teoria e ganha espaço nas empresas

André Borges

Muito se tem falado sobre a eficácia da utilização do ensino a distância entre as corporações brasileiras. Melhor que a discussão sobre possíveis vantagens e desvantagens, a experiência de algumas empresas comprova que, bem utilizado, o recurso funciona. Há exemplos que falam por si.


Um deles é a UniGlobo Virtual, universidade digital lançada há pouco mais de dois anos pela Rede Globo. Baseada nas potencialidades do ensino a distância (EAD), a instituição nasceu com o desafio de utilizar o e-learning como ferramenta aplicada à formação e reciclagem dos conhecimentos de cada profissional que atua na organização. Uma meta nada modesta. Afinal, tratam-se de 15 mil funcionários trabalhando em 110 afiliadas distribuídas pelo país.


A UniGlobo analisou opções no mercado e decidiu adotar a plataforma AulaNet, da EduWeb (solução que inclusive pode ser baixada gratuitamente no site da companhia). A partir daí, começou a desenvolver conteúdo com mão-de-obra interna e terceirizada. “Na maior parte dos casos, são profissionais que dominam TV falando para quem trabalha em TV”, comenta Beth Accurso, consultora da UniGlobo Virtual.


A executiva conta que, já há algum tempo, a Rede Globo identificou a possibilidade de potencializar o uso dos recursos de e-learning, aplicando-os não apenas à simples disseminação e retenção da informação no ambiente corporativo, mas à gestão do conhecimento, conceito que orientou a criação da UniGlobo.


O portal foi se aperfeiçoando e hoje contempla cursos nas áreas de jornalismo (edição de arte, editor de imagem, repórter, produtor de reportagem, jornalismo esportivo), comercial (gestor de vendas, treinamento de mídia, negociação, planos comerciais) e engenharia (teoria de áudio, teoria de vídeo, sistema de transmissão). “No total, são 33 cursos próprios, todos dotados de ferramentas como salas de chat, vídeo, texto etc.”, comenta Beth Accurso.


Segundo a executiva, todos os cursos oferecidos pela universidade virtual são reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC) e têm validade de extensão universitária. Além das formações, os usuários têm acesso a uma midiateca, com arquivos sobre normas técnicas e bibliografias. Com o apoio e supervisões pedagógica e didática da Univir, braço da UniCarioca, especializada em educação a distância, a UniGlobo soma hoje 2.010 alunos diplomados. “Temos cerca de cinco mil usuários acessando o portal simultaneamente”, comemora a consultora.


A executiva não dá números precisos do retorno sobre o investimento, mas lembra que o valor médio gasto em um treinamento virtual é 14 vezes menor que aquele destinado ao método de ensino presencial.


Para o Senac-SP, o ensino a distância é mais que simplesmente uma ferramenta ou curso adicional à sua grade de especializações. Desde 2001, a instituição começou a utilizar o e-learning para treinar e reciclar conhecimentos de aproximadamente três mil funcionários.


Hoje, dos 88 treinamentos ministrados para seus profissionais, envolvendo áreas administrativas e técnicas, onze são ministrados pelo canal online. Rosana Martins, gerente de ensino a distância do Senac-SP, diz que a tendência é de que todos os cursos passem a ser realizados pelo canal eletrônico, seja parcial ou totalmente.


Além de estratégia para treinamento, economia e agilidade em suas formações e processos internos, o e-learning representa hoje uma promissora unidade de negócios para o Senac-SP. Das treze áreas de cursos que ministra em suas instalações, seis já possuem estrutura totalmente adaptada ao formato digital. São elas: informática, moda, gestão do meio ambiente, idiomas, administração de negócios e saúde. “Os cursos são oferecidos de forma totalmente independente, o aluno escolhe se quer realizá-lo no modelo presencial ou online”, explica Rosana.


Desde que a área de EAD foi criada na instituição, já passaram pelos cursos cerca de 3.500 alunos. “O interesse é cada vez maior, este ano registramos um crescimento de 50% sobre o mesmo período do ano passado”, revela a executiva.


A aposta da instituição no ensino a distância está estampada nos investimentos que o Senac-SP vem fazendo na nova unidade de negócios. Segundo Rosana, aproximadamente R$ 4 milhões por ano.


O e-learning excede


A Shell Brasil, segunda maior companhia distribuidora de combustíveis de capital privado do país, também decidiu acelerar seus negócios tendo como apoio soluções de ensino a distância. No próximo mês, a companhia coloca em operação um projeto-piloto de e-learning desenvolvido pela Microsiga Software, desenvolvedora de tecnologias e soluções de gestão empresarial.


Neste caso, o objetivo é aperfeiçoar o treinamento do canal de franqueados que são distribuidores de lubrificantes. De acordo com Aramicio Soares, responsável pelo projeto de educação continuada da Shell, serão capacitados cerca de 570 representantes, sendo 450 vendedores autônomos que prestam serviços às 25 franquias e às sete lojas próprias; e 120 profissionais de telemarketing que atendem este canal.


Soares esclarece que a companhia não pretende utilizar as ferramentas de ensino a distância como substituição, mas como um complemento aos treinamentos presenciais. “É uma forma de manter o canal atualizado e também administrar as equipes de vendas, levando-se em consideração índices de performance x capacitação”, diz.


O projeto tem programação temática dividida em treinamentos técnicos (lubrificação, princípios básicos de mecânica, equipamentos hidráulicos etc.); e de gestão (como atender bem o cliente, como administrar o tempo, profissionais do futuro etc.).


A expectativa da Shell é de que seus investimentos fiquem em torno de R$ 120 mil por ano. O programa da companhia não repassará qualquer custo para o franqueado. Quanto aos resultados, Soares comenta que não se trata de um projeto que visa economia em relação aos treinamentos presenciais. “Nosso objetivo é ter uma equipe constantemente treinada e avaliada, juntamente com a possibilidade de um acompanhamento mensal, que será muito útil para fazermos as nossas avaliações”, comenta.


Os cursos, disponíveis via internet, contarão com ferramentas de programação visual, recursos multimídia e metodologias de comunicação, sendo que o usuário poderá realizá-lo em qualquer momento e lugar. Segundo Soares, cada franquia possui um consultor da Shell, que será responsável por avaliar tanto o trabalho presencial como os treinamentos online.


Mais que instrumento de integração, conhecimento e redução de custos, o e-learning prova que também pode ser uma arma eficaz para lidar com ações criminosas. É o que vem experimentando o Estado do Rio de Janeiro, com o programa Delegacia Legal. Entre outras iniciativas, o projeto consiste em dotar as 150 delegacias cariocas de infra-estrutura de TI e transferir seus presos para casas de custódia. Do total das delegacias, 62 já estão operando com o novo sistema, iniciado em 1999.


Segundo César Campos, coordenador geral do programa Delegacia Legal, um dos outros problemas que o projeto também detectou foi a falta de treinamento e de reciclagem de conhecimento dos policias. “Um policial chega a ficar dez anos sem passar por qualquer treinamento”, diz ele.


Para resolver o problema, Campos conta que o programa implementou cursos presenciais com duração de 12 horas/mês. Como forma de incentivo, ao concluir o treinamento cada policial ganha ainda uma bolsa-auxílio de R$ 500.


Recentemente, um destes cursos foi adaptado e transportado para a plataforma de e-learning da EduWeb e passou a ser oferecido a duas delegacias. “Já tínhamos infra-estrutura de tecnologia, toda as delegacias estão ligadas via intranet; o que precisávamos era concentrar as informações”, conta o coordenador.


Modelo de ação


O projeto piloto, que teve como tema “Auto de Prisão em Flagrante”, contou com inscrição de 95 pessoas, entre delegados e agentes de polícia. Ao concluírem o curso digital, os participantes passaram por uma prova presencial. “O treinamento foi um sucesso e nosso objetivo agora é levá-lo às 62 delegacias que já se adequaram ao Delegacia Legal”, revela Campos.


A partir deste teste, o programa já estuda o desenvolvimento de novos temas. Entre os cursos de ensino a distância que devem entrar na grade de treinamento da polícia carioca estão assuntos como investigação policial, fraudes, identificação de veículos adulterados, inquérito policial, estelionato e homicídios.


Campos reconhece que muitas vezes a polícia não possui um padrão ou até procedimentos para reagir frente a determinada situação. “Nós estamos uniformizando a linguagem policial, além de gerar mais conhecimento”.


O coordenador da iniciativa afirma que o curso piloto será automaticamente disponibilizado a todas repartições incluídas no programa Delegacia Legal. Uma de suas metas agora é capacitar novos coordenadores de cursos dentro de cada instituição, o que deve ser feito com o próprio efetivo policial.


“O interessante é que não é preciso fazer investimentos pesados; já temos a tecnologia disponível e o conhecimento interno; nosso próximo passo será treinar coordenadores para estruturar e gerenciar os novos cursos, o que deve ser feito com o apoio de policias e o departamento de recursos humanos”, explica ele.


Por enquanto, a realização dos cursos online será mantida na intranet que interliga as delegacias, sendo necessário que o funcionário esteja presente no distrito policial para fazer o treinamento. “É mais uma medida de segurança que adotamos, além de contar com as facilidades de nossa própria rede”.


Segundo Campos, todas as delegacias deverão ser incluídas no programa até o final de 2005. Ainda este ano, mais treze passarão pela reestruturação e serão incluídas no projeto Delegacia Legal. Para que isso ocorra, ele projeta que sejam investidos cerca de R$ 60 milhões nos próximos dois anos.


Atualmente, a Polícia Civil carioca conta com 12 mil profissionais, incluindo áreas técnicas e administrativas. “Em longo prazo, podemos projetar que cerca de oito mil policiais passem a realizar cursos online”, comenta ele.


As mil e uma faces do e-learning
Como organizações de diversas áreas estão fazendo uso do ensino a distância


Rede Globo
São 33 cursos oferecidos pela UniGlogo, abrangendo áreas de jornalismo, gestão comercial e engenharia. Disponíveis para cerca de 15 mil funcionários, trabalhando em 110 afiliadas distribuídas pelo país, a universidade virtual já emitiu mais de dois mil diplomas.


Senac-SP
Das treze áreas de cursos que ministra em suas instalações, seis já possuem estrutura totalmente adaptada ao formato digital. Mais de 3.500 alunos já passaram pelos cursos online oferecidos pela instituição.


Shell Brasil
Treinamento do canal de distribuidores de lubrificantes, com capacitação de 570 representantes, sendo 450 vendedores autônomos que prestam serviços às 25 franquias e às sete lojas próprias; e 120 profissionais de telemarketing que atendem este canal da Shell.


Polícia do Rio de Janeiro
Cursos mensais para treinar delegados e agentes de polícia das 150 delegacias do Estado, com temas como investigação policial, fraudes, identificação de veículos adulterados, inquérito policial, estelionato e homicídios. Até final de 2005, cerca de oito profissionais devem ter acesso aos treinamentos.


|Computerworld – Edição 395 – 08/10/2003|

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