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Google e Facebook: Briga de Comadres

A política de bloqueio de dados do Facebook

O Facebook sempre foi avaro em relação aos dados que entesoura. Ele até permite que você exporte a lista de seus amigos. Mas não mais que isto. Ou seja: quem a receber terá em mãos uma lista de nomes mas não os dados correspondentes a cada um deles.

Porque a restrição?

Bem, o Facebook alega que não é um mero serviço de troca de mensagens mas uma rede social e, como tal, cada “conta de usuário” ? e os dados nela contidos ? é um patrimônio do usuário em questão. Que pode fazer o que quiser com eles, inclusive permitir que sejam exportados para outras empresas. Mas apenas seus próprios dados, que ele mesmo controla, não os da lista de “amigos”. Por isto não exporta os dados destas listas. Que são justamente os que interessam às demais empresas.

Ora, poderia perguntar um incauto, mas a lista de “amigos” não é controlada pelo usuário?

Acontece que não é. Por exemplo: se um usuário não gostar dos comentários de um “amigo” ou não conseguir suportar a ideia que, discutindo um assunto qualquer, o “amigo” discorde de sua opinião e sustente sua posição contrapondo argumentos difíceis de contradizer, este usuário, que acredita ser o dono da verdade, pode simplesmente fugir da discussão removendo seu próprio nome da lista de “amigos” do segundo. E este último ? além de agradecer aos fados a sorte de ter se livrado do contato, ainda que eventual, com alguém incapaz de suportar uma discussão em nível adequado ? não pode controlar a alteração que foi feita em sua própria lista de “amigos”.

Portanto, segundo esta linha de argumentação, o conteúdo da lista de amigos de cada usuário não pertence a ele, mas aos amigos. Logo, não cabe a ele autorizar ou não seu compartilhamento com outros sítios.

Pode parecer ridículo, mas este é o argumento usado pelo Facebook para negar, desde o início dos tempos (quer dizer, desde que foi criado), o compartilhamento dos dados de seus próprios usuários.

O que, naturalmente, jamais o impediu de abocanhar avidamente dados de todos os demais sítios da rede, criando inclusive a página “Localizar amigos” ? que chega a exibir os logotipos dos demais sítios ? especificamente para este fim. Basta que você ofereça seu nome de usuário (“userid“) e senha do outro sítio (com o que, presume o Facebook, você fornece autorização) para que seus dados lá armazenados (e não apenas os seus, mas o de todos os que fizerem parte de sua lista de endereços ou amigos, inclusive de outras redes sociais) sejam compartilhados com o Facebook. Que assim, sem fornecer suas próprias listas, se apodera vorazmente das dos demais.

É claro que o próprio Facebook abre exceções. Por exemplo, com a Microsoft ela compartilha dados. E com o Yahoo! também. Mas a Microsoft é a principal investidora no Facebook (em 2007 a MS comprou um total de 240 milhões de dólares americanos em ações do Facebook) e acaba de fechar um acordo comercial com o Yahoo! que, entre outras coisas, torna o Bing, da MS, a principal ferramenta de busca do parceiro.

Se a você a atitude do Facebook cheira mal, com um forte odor de hipocrisia, é sinal garantido que seu olfato continua funcionando nos conformes.

O Google, por sua vez, desde sua criação tem posado como o paladino da justiça e da abertura. Seu mote oficial é “Don?t be evil” (“não seja mau”) que, segundo quem o cunhou (de acordo com a Wikipedia, Paul Buchheit o criador do GMail) “representa um golpe em muitas outras companhias, especialmente nossos concorrentes, que no momento, em nossa opinião, estão de certo modo explorando os usuários“, E não se cansa de bombardear a imprensa com informações sobre como ela é justa, como todos os seus aplicativos ? e, agora, seu sistema operacional Android ? são abertos, livres, leves e soltos.

Resultado: o Google acabou, literalmente, enredado em sua própria rede. Pois com que cara uma empresa que sempre pregou abertura total vai, de repente, fechar-se em si mesma e passar a impedir que seus dados, que sempre fluíram livremente, sejam compartilhados?

Pois bem: provando mais uma vez que empresas não têm ideologias, têm interesses, o Google fez aquilo que sempre alegou ser contra que outros fizessem: bloqueou os dados de seus usuários impedindo que o Facebook os transfira para seus servidores.

É verdade que fez isto de um modo, digamos, um tanto envergonhado. Como a donzela pudibunda que passou a vida pregando o puritanismo mas um dia se deixou cair na tentação e, docemente constrangida, permitiu que lhe roubassem o primeiro beijo, fê-lo mediante tíbios protestos e profusas justificativas.

No caso do Google, a justificativa foi não receber o que jamais havia recebido: reciprocidade. E a forma de fazê-lo foi alterando um item dos termos de uso de sua API (“API Terms of Service“), mais especificamente o de número 5.8 que trata da portabilidade de dados. Ele agora determina: “Google supports data portability. By accessing Content through the Contacts Data API or Portable Contacts API for use in your service or application, you are agreeing to enable your users to export their contacts data to other services or applications of their choice in a way that substantially as fast and easy as exporting such data from Google Contacts, subject to applicable laws“. Que, resumindo, afirma que o Google aceita a portabilidade de dados desde que quem a use concorde em permitir que seus próprios usuários, por sua vez, possam exportar seus dados para outros serviços e aplicativos ? justamente aquilo que o Facebook não faz. E como é o único que não faz, não foi preciso que o Google pagasse o vexame de dizer: “dou pra todo mundo menos para o Facebook”. Mas o objetivo da mudança foi justamente este.

Mesmo porque mais que isto o Google não poderia fazer. Como durante anos a fio pregou abertura total sem jamais falar em reciprocidade, ficou em situação delicada. É claro que poderia alegar que o negócio sempre foi feito na base do velho provérbio napolitano “Se tu dai una cosa a me, io poi do una cosa a te!” que todo enamorado conhece. E como o Facebook não estava sendo razoável levando a “cosa” do Google sem depois dar sua própria “cosa” para o Google, este último decidiu que não mais daria sua “cosa” para o Facebook. E olhe lá, posto que mais que isto seria inaceitável partindo de uma empresa que sempre alardeou sua abertura.

E assim foi feito.

O problema é que a sem-vergonhice do Facebook vai muito além do que se poderia imaginar. Tanto assim que se aproveitou do fato de que, se o Google poderia negar a ele, Facebook, a transferência direta dos dados dos usuários, não poderia fazê-lo aos próprios usuários, impedindo que os transferissem para suas máquinas.

Entenda bem a coisa: do ponto de vista técnico, poder até que poderia. Bastava impedir o acesso aos dados. Mas, do ponto de vista moral, como fazê-lo? Especialmente em se tratando de uma empresa cujo mote é “Don?t be evil“? Não dá. Cara de pau tem limite.

Quer dizer, tem limite para o Google. Para o Facebook, definitivamente, não (pensando bem, talvez o nome “Facewood” ou “Woodenface” lhe caísse melhor). Pois não é que os caras desenvolveram um “script” muito do safado que contorna o problema de uma forma (a meu ver) muito pouco ética porém tão eficaz que acabou por obrigar o Google a se engasgar com o próprio veneno?

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Repare na Figura 2. É a janela que aparece quando um usuário nos EUA tenta transferir seus dados do Google para o Facebook. O retângulo superior, de fundo amarelo, informa ao incauto que “O Google não retornou nenhum dos nossos contatos” (mas é claro! Será que o Facebook não leu o Item 5.8 dos termos de uso da API do Google?). E acrescenta: “Mas você ainda pode encontrar seus amigos no Facebook transferindo o arquivo de seus contatos no Gmail como abaixo”.

Embaixo do retângulo vem a receita perversa: “Primeiro, baixe seus contatos no Gmail em um arquivo em seu próprio computador clicando neste botão” bem acima do botão “Baixe seus contatos”.

Mais abaixo aparece: “Depois, suba o arquivo de contatos clicando no botão abaixo”. E, na base da janela, aparece o botão “Suba seus contatos”.

Percebeu? O usuário nem mesmo precisa sair da página do Facebook. O “script” cuida de tudo. Basta clicar em dois botões. O primeiro estabelece uma conexão com o Google e solicita a transferência do arquivo para o computador do usuário. Ora, quem está por detrás dos panos é o Facebook ? e, como logo veremos, o Google sabe disso ? mas tecnicamente quem está ordenando a transferência é o próprio usuário do Gmail. E a transferência não será feita para o servidor do WoodenFace, digo, Facebook (pelo menos naquele momento) mas para o micro do próprio usuário. Portanto o Google não tem como impedi-lo sem desonrar seu compromisso com a tão decantada abertura.

Fazer o que?

Nada, a não ser tocar pra frente a briga de comadres.

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