Os que leem esta coluna com regularidade sabem que, embora publicada no ForumPCs, um sítio voltado especificamente para a tecnologia, de vez em quando me ocupo com assuntos que nada têm a ver com ela. Por vezes são colunas sobre vultos históricos, outras respondendo questionamentos dos leitores sobre meu jeito de escrever e esta mania que alguns consideram imperdoável de respeitar nosso idioma evitando estrangeirismos, outras ainda sobre coisas que nada têm a ver com qualquer destes temas. Sobre comportamento, por exemplo, como na coluna “O Carioca Ixperto” publicada no final do ano passado ? que deve ter despertado algum interesse já que motivou mais de cem comentários.
A coluna de hoje é semelhante a esta última. E fica aqui o aviso logo no começo para que aqueles que só se interessam por tecnologia não se decepcionem e, se assim acharem conveniente, não percam seu tempo em lê-la até o final. Nesta, há uma única menção a bytes: a que acabaram de ler.
Isto posto, vamos adiante.
Ultimamente tenho recebido frequentes mensagens de correio eletrônico convocando para participar de movimentos contra corrupção, uma iniciativa mais que meritória. O assunto parece estar ganhando relevância no Brasil, o que eu acho excelente. E, juntando-me àqueles que consideram que o método universal e moderno de avaliar o interesse sobre algum assunto é efetuar uma pesquisa no Google, acabei de fazê-lo com a expressão “contra corrupção” e recebi quase quinze milhões de retornos. Uma boa indicação de que o povo brasileiro (ou pelo menos aquela parcela que tem acesso à Internet) está vivamente interessado em tomar alguma iniciativa para banir este mal. E, para evitar que o objetivo desta coluna seja mal interpretado, quero deixar bem claro que eu compartilho este interesse de forma integral e incisiva e o faço com todo o empenho. Também sou contra, eminentemente contra, incisivamente contra, absolutamente contra a corrupção. Um fenômeno, é bom que se diga, que nem é novo nem brasileiro, como prova a Figura 1 obtida dos WikiCommons, foto do mural Legislação corrupta de Elihu Vedder, que enfeita a o salão de entrada a Biblioteca do Congresso nos EUA, datado de 1896.
Mas que corrupção?
Talvez valha a pena especificar, pois há muitas.
Há a corrupção dos políticos que elegemos para fazer nossas leis e administrar o país, estados e municípios, indiscutivelmente a mais óbvia e visível. Recentemente tivemos no Rio de Janeiro um governo (com minúscula mesmo, que este não merece maiúscula nem no nome) que, ao findar, teve o chefe de polícia preso sob a acusação de, enquanto exercia suas funções, chefiar quadrilha armada. Um acontecimento que, tanto quanto eu saiba, é inédito na história da humanidade. E basta ler os jornais, acompanhar os noticiários no rádio e televisão ou, talvez, prestar atenção nas conversas nas mesas de bar para ter certeza que não se trata de lenda urbana: a corrupção dos políticos existe e permeia as estruturas dos três poderes (há alguns anos eu cultivava a ilusão que o judiciário era a exceção que confirmava a regra, mas veio o juiz Lalau com seus apartamentos em Miami e, depois, alguns de seus colegas presos por venda de sentença que mataram mais esta crédula ilusão).
Há também a corrupção policial, mas sobre esta não convém nos estendermos muito considerando o que ocorreu recentemente com a Juíza Patrícia Acioli em Niterói, covardemente assassinada com quinze disparos de arma de fogo por haver decretado a prisão de três policiais corruptos. Tenho algum amor à parca parcela de vida que ainda me resta e pretendo aborrecer vocês com minhas colunas por mais algum tempo para me arriscar a detalhar o assunto. Mas que a corrupção policial existe e é tão reprovável quanto a que assola a classe política é indiscutível.
Convém não esquecer também a corrupção administrativa. Não há muito tempo assisti a um quadro humorístico que retratava uma repartição pública cujo peso administrativo dos despachos concedidos dependia do tamanho do carimbo usado que, por sua vez, era diretamente proporcional ao valor pecuniário da propina. O mais eficaz era o “carimbaço”, cujo emprego exigia que uma considerável quantia fosse desembolsada. E, embora o retrato fosse um tanto caricato, o que não falta por aí são repartições públicas ? e privadas ? que seguem o mesmo figurino. Inclusive alojando a moça cuja única função era abrir a gaveta inferior do arquivo, para os que se lembram do quadro.
E estas são apenas as manifestações mais visíveis da corrupção. Pense um pouco e certamente se lembrará de outras que vão desde o porteiro do teatro que aceita discretamente uma nota dobrada em vez do ingresso até o fiscal que organiza filas e embolsa o equivalente à popular “cervejinha” para reduzir o tempo de espera de alguns privilegiados.
Naturalmente o povo brasileiro tem se manifestado contra todas elas. O que é digno dos maiores encômios, para dizer o mínimo. Bradamos todos, altissonantes, contra a corrupção, com a natural exceção dos que dela se locupletam ? se bem que, curiosamente, mesmo alguns destes têm se manifestado contra de forma efusiva e, o que é pior, sincera, fenômeno curioso e só explicável porque há quem considere que a corrupção é como certas doenças que só “dão” nos outros.
Mas o que dizer sobre a corrupção trivial? Aquela pequena corrupção que grassa por aí, que passa quase despercebida e por vezes afeta justamente àqueles que tão bravamente se alevantam contra a outra, a que chega às manchetes, a dos políticos, administradores, policiais, membros do judiciário, funcionários públicos ou fiscais disto ou daquilo?
Ou será que um povo que se movimenta tão maciçamente contra a corrupção é majoritariamente incorruptível?
Bem, antes de tudo convém lembrar que toda generalização é no mínimo perigosa, quando não preconceituosa. Afirmações como “o português é inteligente”, “o francês é asseado”, “o judeu é perdulário”, “o baiano é diligente” ou “o pelotense é mucho macho”, por genéricas, nem sempre são verdadeiras. Certamente haverá exceções e, eventualmente, em tal quantidade que se podem se mostrar mais numerosas que as citadas como regra. Portanto não cairei na armadilha de escrever que “o brasileiro é…” isso ou aquilo. Em vez disto me limitarei a citar certos comportamentos que tenho testemunhado com alguma frequência entre meus concidadãos. Comportamentos que talvez se manifestem em outros países e outras culturas mas que eu, que tenho viajado bastante por este mundão velho sem porteira, ainda não consegui identificá-los em outras plagas ? pelo menos não com a mesma frequência ou intensidade com que os percebo por aqui. Comportamentos que citarei abaixo, a maior parte deles colhidos em uma mensagem que circula pela Internet sem autor declarado, destas que as pessoas costumam encaminhar aos amigos. Eu a recebi de minha amiga Sueli Catão, que a recebeu de um amigo que a recebeu de outro e assim por diante e, por não saber a quem creditá-la, agradeço à Sueli por me a haver enviado e, sobretudo, a seu autor, seja ele quem for, por havê-la concebido. Mas, para não levar a pecha de roubar dados sem citar a fonte ? um dos comportamentos a serem anexados à lista ? deixo claro que sua autoria não é minha.
Talvez você considere que tais comportamentos não configuram corrupção pelo fato de nem sempre envolverem desvio de dinheiro ou bens materiais. Se é assim, convém atentar para o que o Houaiss define como “Corrupção“. Lá está, entre outras acepções: “substantivo feminino – depravação de hábitos, costumes etc.; deterioração, decomposição física, orgânica de algo“. E este “algo” pode perfeitamente representar os valores morais de uma sociedade. Então vamos ser claros: todos eles são, sim, manifestações claras de corrupção. Quem quiser amenizar um pouco chame-os de corrupção no varejo. Mas corrupção.
O fato de serem tão comuns entre nós não implica que o afável leitor ou a mimosa leitora os pratique e nem eu estou sugerindo que seja este o caso. Mas pense um pouco e provavelmente identificará alguém que é dado à prática de um ou outro deles sem que isto o leve a se considerar corrupto. Pelo contrário, crê que são perfeitamente justificáveis e continua se achando um cidadão exemplar, pronto a se envolver de corpo e alma nas campanhas contra tudo aquilo que está errado (desde que praticado pelos outros) e pró moralidade pública e privada.
E já que falamos em privada, vamos a eles. Mas, antes, uma observação. O fato de serem tão comuns e difusos em nossa sociedade e, algumas vezes, habitualmente praticados por pessoas tidas como cidadãos exemplares, indica que muitos deles já se integraram a nossos usos e costumes, perdendo seu caráter reprovável. Quase todos são justificados com uma das indagações “qual o problema?” (que um ministro use como meio de transporte o avião de uma indústria cujos produtos são licenciados por seu ministério), “o que que tem?” (que um parlamentar receba uma polpuda contribuição para sua campanha de uma prestadora de serviços de telecomunicações quando a lei que regula o assunto está prestes a entrar em discussão no congresso), “e daí?” (que a mulher ou amante ou filha ou genro ? escolha ? de uma autoridade pública trabalhe no gabinete de um colega, recebendo salário dos cofres públicos, quando por coincidência a mulher, ou amante, ou filha, ou genro ? escolha ? do colega trabalha nas mesmas condições no gabinete do primeiro). “Que mal faz?” (que a magnífica reforma do apartamento do não menos magnífico reitor seja paga pela verba da universidade destinada ao ensino). Indagações que fazem crer que quem os pratica considera que, por não serem explicitamente ilegais, os comportamentos são tidos como corretos.
E aqui vai uma pequena lista de coisas que quem sabe você jamais fez, mas que muito provavelmente conhece alguém que faz e não vê nelas nada de errado ou, se vê, considera desculpável, o varejo da corrupção:
A lista poderia continuar a ponto de se tornar enfadonha. Usar programas pirata ou programas que solicitam uma módica contribuição do usuário sem fazer tal contribuição. Enganar o fiscal da alfândega quando declara verbalmente o que traz na bagagem retornando do exterior. Comprar, comercializar ou fabricar produtos falsificados, iguaizinhos aos originais. Fazer uma fezinha no jogo do bicho ou nos caça-níqueis ilegais. Emplacar o carro fora do domicílio forjando um endereço inexistente para pagar menos imposto. Declarar uma idade menor da criança que acompanha para que ela passe por baixo da roleta da condução paga. Substituir o catalisador do carro por um que só tem o invólucro. Estacionar em vagas exclusivas para deficientes. Solicitar notas fiscais de refeições e pequenos serviços reembolsados pelo empregador com valor a maior. Declarar raça ou cor da pele diferente para se aproveitar das cotas nas universidades. Instalar “gato” de luz, água ou televisão via cabo. Usar atestado médico falso para justificar faltas no trabalho. Dirigir após consumir bebida alcoólica acima do legalmente aceito. Violar a lei do silêncio…
Melhor parar por aqui. Mas exemplos não faltam e eu poderia alongar a lista mais umas tantas páginas.
Então vamos lá. Analisemos os fatos.
Para começar convém declarar que não pretendo passar por paladino da justiça e da honestidade, cidadão impoluto, virgem no prostíbulo. Também eu, confesso, já dei minhas pisadas na bola e andei me enquadrando em um ou outro dos comportamentos da longa lista de corrupção no varejo. Não sou isento de jaça, não quero me fazer passar por paradigma da virtude e faço questão de deixar isto bem claro. Porque se há um tipo que desprezo é o do falso moralista e, segundo meu critério, das qualidades humanas mais detestáveis, logo depois da estupidez, vem a hipocrisia.
Mas não posso me furtar a convocá-los a uma reflexão.
Será que esta pequena corrupção do varejo é menos condenável que a do governador que apareceu na televisão embolsando pacotes de dinheiro? Será menos prejudicial que a do capanga do deputado que levava dinheiro na cueca? Será mais moralmente aceitável que a do policial que libera o meliante em troca de “algum” ? Será que a corrupção do “E daí?”, do “O que que tem?”, do “Que mal faz?”, do “Qual o problema” deixa de ser condenável apenas porque se tornou difusa tão grande foi a adesão a ela? Será que a alegação do “todo mundo faz” coonesta estes comportamentos? Ou eles continuam sendo exemplos de corrupção ? só que pequena?
Veja bem: não é que eu seja a favor da outra, da grande que vira manchete, da do juiz Lalau, da do ministro tal e qual, da do nobre deputado e do não menos nobre senador, da do doutor delegado ou do excelentíssimo isso ou aquilo que “deu” no jornal nacional. Sou contra. Veementemente contra. Fervorosamente contra. Enfaticamente contra.
Mas antes de aderir a uma campanha contra ela, pretendo fazer ? e aconselho a quem teve a paciência de chegar até aqui nestas mal traçadas que também o faça ? um exame de consciência para avaliar quais das pequenas corrupções acima catalogadas pratico ou pratiquei. E, das que constatar, fazer uma promessa a mim mesmo de evitar a reincidência.
Do contrário não vai dar para aderir.
Senão vou acabar me sentindo, além de corrupto, hipócrita.
B. Piropo
Diogo Cortiz, professor da PUC-SP e doutor em Tecnologias da Inteligência e Design Digital, tem…
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