Dados de 50 milhões de usuários foram usados em Campanha de Trump

O Facebook se viu, neste final de semana, sob um fogo cruzado com a notícia revelada pelo The New York Times e o jornal britânico The Observer de que 50 milhões de perfis da rede social foram usados por uma empresa de pesquisa e consultoria, a Cambridge Analytica (CA), para influenciar as eleições norte-americanas que levaram Donald Trump à presidência.

Na última sexta-feira (16), John Mulholland, editor do Observer, publicou em sua conta no Twitter que a companhia de Mark Zuckerberg chegou a ameaçar o jornal na tentativa de impedir a publicação da reportagem.

O cientista da computação canadense e ex-funcionário da Cambridge Analytica, Christopher Wylie, 28, revelou aos jornais como a empresa em questão utilizou de um aplicativo para coletar a informação dos 50 milhões de usuários do Facebook, a maioria cidadãos americanos. O chamado “This is your Digital Life” consistia em um quizz de análise de personalidade e que para ser utilizado pedia a permissão para acessar informações dos usuários. Segundo o NYT, apenas 270 mil usuários deram seu consentimento para que o app acessasse informações como curtidas, compartilhamentos, gênero, status civil e afins. Entretanto, ao concordar com os termos de uso da ferramenta, esses usuários também deram acesso aos dados da sua rede de amigos. Foi assim que a companhia escalou para os milhões de usuários.

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A CA obteve essas informações ainda em 2014. De acordo com a reportagem do The Observer, o aplicativo construído por Aleksandr Kogan, em colaboração com a CA, lançou uma pesquisa onde centenas de milhares de usuários foram pagos para fazer o tal teste de personalidade e concordaram em ceder seus dados para uso acadêmico. Naquela época, a política de privacidade do Facebook ainda permitia a coleta de dados de amigos para melhorar a experiência na própria rede social e para fins acadêmicos, mas barrava para fins de publicidade. No entanto, a descoberta do uso – mesmo que indevido – de dados de milhões de usuários para influenciar o resultado democrático das eleições reforça as preocupações e ceticismo ao redor do Facebook como ferramenta de controle social.

Segundo o ex-funcionário da CA, Wylie, essas informações foram usadas para construir um software que pudesse cruzar dados para “prever” quem dos cidadãos norte-americanos seria potencialmente um eleitor de Trump e assim direcionar anúncios políticos personalizados para tal. Ao mesmo tempo, encaminhava anúncios e conteúdo que desestimulavam potenciais eleitores de Hillary Clinton a não votarem.

Legisladores dos Estados Unidos e do Reino Unido se pronunciaram cobrando investigação urgente do Facebook e da Cambridge Analytica. O senador democrata Mark Warner propôs a regulamentação de anúncios políticos online da mesma forma que é feito na televisão, rádio e mídia impressa. Em paralelo, autoridades investigam se a CA também lançou campanhas que influenciaram o Brexit, resultando na saída do Reino Unido da União Europeia.

A campanha eleitoral de Trump contratou a Cambridge Analytica em junho de 2016 e lhe pagou mais de US$ 6 milhões, segundo registros sociais. A empresa tem como investidores o ex-estrategista-chefe de Trump e ex-chefe da sua campanha eleitoral em 2016, Steve Bannon, e Robert Mercer, um doador republicano.

Facebook: não houve vazamento

A imprensa colocou o acesso aos milhões de perfis de usuários do Facebook como o maior vazamento da rede social até então. Já executivos da companhia se adiantaram e defenderam que o caso em questão não se trata tecnicamente de um vazamento e sim que as pessoas escolheram compartilhar suas informações. “Nenhum sistema foi infiltrado, senhas e informações não foram roubadas ou hackeadas”, escreveu em sua conta no Twitter o Vice-presidente para VR e AR do Facebook, Andrew Bosworth. Como reação, o Facebook suspendeu as contas da Cambridge Analytica e de Christopher Wylie.

Vazamento ou não, o Facebook deve encarar uma série de desdobramentos a partir desta história. Além da apuração no Congresso americano e no parlamento britânico, o caso pode gerar uma multa multimilionária ao Facebook pela possível violação de uma regulação da Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC) para proteger a privacidade de seus usuários. Ao mesmo tempo, o Facebook – que sempre defendeu ser extremamente difícil utilizar dados de usuários para usos ilegítimos – terá, novamente, que se posicionar e agir.

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