Quando a verdade deixa de ser suficiente: desafios de um Fórum global 

Num cenário marcado por desinformação e tecnologias digitais, cresce o desafio de fortalecer a confiança e garantir decisões baseadas em evidências

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por ABES
10:00 am - 16 de abril de 2026
Imagem: Shutterstock

No dia 16 de abril, celebra-se o Dia Mundial da Voz — uma data que nos convida a refletir não apenas sobre a importância da expressão humana, mas também sobre aquilo que escolhemos dizer e, sobretudo, sobre o que decidimos escutar. 

Recentemente, entre múltiplas vozes e possibilidades de escuta, decidi participar do Fórum Global de Centros Colaboradores da Organização Mundial da Saúde (OMS). O encontro reuniu centenas de instituições de diferentes países com o objetivo de dialogar sobre os rumos da saúde global em um cenário cada vez mais complexo, incerto e interconectado. 

Entre os diversos temas abordados, um se destacou de forma transversal e recorrente: a crescente tensão entre informação e desinformação e seus impactos diretos sobre as populações em diferentes contextos sociais. 

Aqueles que falaram pela OMS foram enfáticos ao reconhecer que a desinformação deixou de ser um fenômeno episódico, restrito a momentos de crise, para se tornar um problema estrutural. Não se trata apenas da circulação de conteúdos falsos. Trata-se de um ecossistema mais amplo, no qual informações distorcidas, incompletas ou manipuladas disputam espaço com evidências científicas, muitas vezes em condições desiguais, uma vez que recursos expressivos são direcionados à desinformação. 

Nesse contexto, a ciência já não ocupa automaticamente o lugar de autoridade. Ela precisa disputar espaço e legitimidade. Em um mundo marcado por fluxos intensos de informação, dar voz à ciência, às instituições e ao conhecimento qualificado tornou-se um desafio central. 

Um dos pontos mais relevantes debatidos no Fórum foi a constatação de que comunicar evidências não é suficiente. A relação entre ciência e sociedade passa, hoje, por dimensões mais complexas. Essas dimensões envolvem emoções, crenças, experiências individuais e contextos socioculturais. Em situações de desarticulação, medo e descrédito, as pessoas tendem a tomar decisões menos baseadas em evidências. Tornam-se mais influenciadas por narrativas que lhes parecem próximas, acessíveis ou habituais. Afinal, antes da verdade em si, o que está em disputa é o que se enuncia como verdadeiro. 

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Esse cenário coloca no centro do debate a questão da confiança. A confiança nas instituições, nos sistemas, nos profissionais e na própria ciência tornou-se um ativo estratégico. Sem ela, diretrizes técnicas, políticas públicas e recomendações perdem eficácia, independentemente de sua qualidade ou fundamentação. A legitimidade social da ciência e de seus oradores emerge como um dos pilares da governança no século XXI. 

Durante o Fórum, também se evidenciou que essa crise de confiança não pode ser compreendida de forma isolada. Ela está profundamente relacionada a desigualdades sociais, assimetrias de acesso à informação e experiências históricas de exclusão. Soma-se a isso, mais recentemente, o impacto das transformações promovidas pelas tecnologias digitais. Plataformas online, redes sociais e sistemas baseados em algoritmos reorganizaram radicalmente a forma como a informação circula, é consumida e validada. 

É nesse ponto que o debate se torna ainda mais desafiador — e, ao mesmo tempo, mais urgente. As tecnologias de informação não são neutras. Elas operam a partir de lógicas próprias, frequentemente orientadas por engajamento, visibilidade e interesses econômicos, o que pode favorecer a amplificação de conteúdos sensacionalistas e polarizadores. Além disso, o avanço da inteligência artificial e da geração automatizada de conteúdos torna cada vez mais difícil distinguir entre informação confiável e desinformação. 

Essas tecnologias representam, simultaneamente, uma oportunidade e um risco. Por um lado, ampliam o acesso ao conhecimento, possibilitam novas formas de comunicação e podem fortalecer sistemas públicos. Por outro, podem aprofundar desigualdades ao invisibilizar grupos vulneráveis e criar ambientes informacionais propícios à disseminação de conteúdos enganosos. 

Diante disso, torna-se imprescindível ampliar o debate público sobre o papel das tecnologias de (des)informação. Não se trata apenas de melhorar estratégias de comunicação, mas de repensar os próprios fundamentos do ecossistema informacional contemporâneo. Isso inclui discutir transparência e responsabilidade, regulação e ética. Inclui, sobretudo, pensar em mecanismos capazes de fortalecer a confiança pública, qualificar a circulação de informações e proteger as populações mais vulneráveis. 

Entre esses mecanismos, destacam-se o investimento em letramento digital; o fortalecimento do papel dos profissionais da linha de frente que, em contato direto com a população, podem atuar como mediadores confiáveis da informação; a construção de estratégias de comunicação baseadas na escuta e no engajamento, e não apenas na transmissão de conteúdos; e o desenvolvimento de ações proativas capazes de antecipar a disseminação de desinformação. A isso se soma a necessidade de articulação entre instituições, produção de evidências aplicadas e adaptação das estratégias às diferentes realidades sociais e culturais. Mais do que combater conteúdos falsos, trata-se de construir ambientes informacionais mais seguros e capazes de sustentar decisões que impactam diretamente a vida das pessoas. 

É justamente nesse ponto que a reflexão proposta pelo Dia Mundial da Voz ganha uma dimensão ainda mais profunda. Se a data nos convida a pensar sobre a importância de se fazer ouvir, o contexto atual nos impõe uma questão adicional: como garantir que as vozes que circulam no espaço público sejam não apenas audíveis, mas também confiáveis, legítimas e orientadas ao bem comum? Em um mundo atravessado por emergências sanitárias, climáticas e sociais, essa não é apenas uma questão de comunicação — é uma questão de proteção ou violação de direitos. 

Reforçar a confiança na ciência e nas instituições, promover o acesso equitativo à informação de qualidade e enfrentar, de forma crítica, os desafios colocados pelas tecnologias digitais são passos fundamentais para construir respostas mais eficazes e inclusivas. Afinal, o futuro global depende das vozes que escolhemos amplificar. 

MARCELO NERY Quando a verdade deixa de ser suficiente: desafios de um Fórum global Marcelo Batista Nery é pesquisador no Think Tank da ABES e na Cátedra Oscar Sala do Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA-USP), coordenador de Transferência de Tecnologia e Head do Centro Colaborador da OPAS/OMS (BRA-61) do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo. As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, os posicionamentos da Associação. 

 

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