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Esse "cara" sou eu?

Pequenas escolhas que contribuem para um discurso mais inclusivo

Por  Fernanda Brunsizian

12:00 - 10 de março de 2020
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Discurso inclusivo

É possível haver pensamento sem linguagem? Quanto da nossa capacidade de raciocínio está presa aos vocábulos que conhecemos? Será que o exercício de expandir o nosso conhecimento idiomático nos faria pensar de forma mais ampla?

Estudos comprovam que sim, que conhecer mais palavras em nosso próprio idioma e conhecer outros idiomas acabam abrindo a nossa mente e nos trazendo novas possibilidades de abstração. Como disse Caetano Veloso, “está provado que só é possível filosofar em alemão”!

Como isso afeta a comunicação? Quando falamos ou escrevemos, fazemos escolhas, muitas vezes involuntárias e relacionadas às referências que temos e acumulamos na vida. Mas nossas escolhas têm o poder de incluir ou excluir pessoas e essa consciência é muito importante para quem quer se comunicar melhor e de forma mais abrangente. 

Neste mês, aproveitando as discussões que permeiam o Dia Internacional da Mulher, escolhi falar sobre questões relacionadas a gênero, mas existem muitas outras que podemos explorar depois. 

Sendo português um idioma que generaliza no masculino, muitas vezes as mulheres não se vêem representadas no discurso e construímos todas as nossas figuras mentais com homens. Mas português é também um idioma bem versátil, em que não é difícil contornar a situação com pequenos “truques”. Isso tudo para quem estiver disposto a fazer o teste, é claro! Vamos lá:

  • o cara/a pessoa. O cara aparece em todos os lugares! Ele é sempre o protagonista dos exemplos: “vou contratar um cara”, “tem cara que não gosta”, “o cara quer um produto assim” e por aí vai. Se você questionar um homem (ou um cara!) sobre isso, ele vai dizer: que besteira, “cara” é genérico! Mas não, não é. Porque em nenhum momento em que dizemos “cara”, alguém visualiza uma mulher; e assim vamos constituindo um universo povoado de homens. O uso contínuo da palavra em um mesmo discurso, faz com que as mulheres se desconectem totalmente da situação. Portanto se você está vendendo um produto ou serviço que pode ser usado por um homem ou uma mulher, tente substituir o “cara” por uma “pessoa”. Tem exatamente o mesmo sentido e não distancia ninguém. 

 

  • as vagas de emprego. As vagas normalmente são escritas no masculino: coordenador, assessor, diretor. Para essa situação, existem dois caminhos: se a sua empresa for multinacional e se a função exigir que a pessoa fale inglês, você pode publicar a vaga em inglês, idioma em que não temos essa diferenciação. Caso você queira publicá-la em português, sempre pode recorrer ao substantivo: coordenação, assessoria, diretoria.

 

  • neutralização: muitas expressões que usamos no dia a dia do trabalho trazem uma carga histórica, que é exatamente o que estamos tentando mudar. Expressões como “homens de negócios”, “os líderes da empresa”, “as mulheres da limpeza” podem ser neutralizadas e assim trabalhar para que o nosso pensamento desconstrua figuras. Alternativas são “o mundo dos negócios”, “a liderança da empresa”, “o pessoal da faxina”.

 

  • formas duplas e barras: em momentos em que não é possível neutralizar, podemos usar a forma dupla ou o emprego de barras. “Os meninos e as meninas que foram ao evento” ou “qualquer aluno/a que queira se inscrever”. Minha única ressalva para este recurso é que, em textos longos, ele pode tornar-se cansativo, portanto deve ser empregado com moderação!

 

O que não fazer: por mais  simpático que seja usar @ ou x nas palavras, como “queridxs” e “lind@s” (eu mesma já usei muitas vezes), a verdade é que esta escolha passa longe de ser inclusiva. Ela dificulta a leitura, principalmente para quem possui dislexia, e não é lida por nenhuma ferramenta de acessibilidade. Nesse caso, ela pode até suavizar a questão de gênero, mas passa a excluir outros grupos, o que não é a intenção!

A linguagem evolui e idiomas se adaptam às mudanças da sociedade. Palavras entram em desuso, outras passam a ser aceitas na linguagem formal. Mas a evolução idiomática é mais lenta que a da sociedade, portanto temos a escolha de poder fazer algo enquanto isso. Se pensamos como falamos ou escrevemos, é possível que se mudarmos as palavras, possamos repensar alguns conceitos!

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