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Cirurgia robótica: da Vinci versus o ideal

Quando o da Vinci Surgical System foi apresentado em 2000 pela Intuitive Surgical, ele foi considerado o prenúncio de uma nova era de cirurgias robóticas. O robô prometia facilitar as operações para o cirurgião, reduzindo complicações, dores e o tempo em que o paciente fica sob anestesia e em recuperação.

Agora, parece que a realidade da robótica está causando algumas rachaduras nessas perspectivas.

Desde que foi aprovada pelo FDA, o da Vinci Surgical System foi instalado em cerca de 2 mil hospitais nos Estados Unidos, executando 367 mil procedimentos apenas no ano passado, segundo a Intuitive. Mas os eventos adversos vêm aumentando: a FDA observou um aumento de 34% dos incidentes relatados de 2011 a 2012. Além disso, a empresa está enfrentando mais processos por responsabilidade sobre o produto, e os advogados dos querelantes procuram mais pacientes com alegações de problemas. Uma pesquisa sugere ainda que existem muitos outros eventos adversos que não foram corretamente relatados.

Então, em julho, a FDA criticou a Intuitive por não relatar corretamente alguns eventos para a agência reguladora. Essa crítica causou uma queda no valor da ação da Intuitive Surgical e downgrades pelos analistas financeiros. Agora, a questão principal é “O problema é totalmente da tecnologia?”

FDA pesquisa cirurgiões

Em 11 de novembro, o FDA publicou os resultados de um pequena pesquisa (com apenas 11 cirurgiões) sobre o da Vinci Sugical System. Os cirurgiões citaram os benefícios da ferramenta cirúrgica: acesso melhorado para alcanças espaços anatômicos, menos tempo com o paciente sob o efeito anestésico, menos dano a nervos e menos dor entre os pacientes.

Apesar de um cirurgião ter sugerido que a seleção dos pacientes poderia ter mais relação com as complicações do que a máquina em si, os outros afirmaram que o maior desafio com o da Vinci era aprender a usar a complexa interface de usuário do sistema. Os participantes sugeriram mais treinamento, integração dos parâmetros do paciente na tela, incorporação de ultrassom e feedback háptico (tátil).

Minhas observações acerca do da Vinci

O da Vinci Surgical System não é realmente um sistema robótico. Um ser humano ainda está realizando a operação do paciente, embora remotamente. É, na verdade, um sistema de teleoperação que traduz os movimentos do cirurgião eletronicamente para os braços mecânicos (ou efetores finais) durante o procedimento.

Os instrumentos fornecem sete graus de liberdade (três para translação, três para rotação e um para agarramento), bem mais próximo do que um punho humano pode fazer do que os instrumentos de laparoscopia usados comumente. E a visualização estereoscópica tridimensional proporciona uma representação detalhada das características anatômicas, mesmo em espaços apertados. Apesar de todos esses recursos, os cirurgiões têm apontado algumas deficiências.

Um de meus mentores, um cirurgião que usou bastante o da Vinci, afirmou que o sistema é útil somente para tipos específicos de procedimentos, onde as estruturas anatômicas estão fixas no lugar, como o útero ou a próstata. De fato, 80% dos procedimentos incluem histerectomias e prostatectomias.

Além disso, cirurgiões não precisam apenar ver; também precisam sentir. De fato, nos anos 60, muitos cirurgiões recusavam a ideia de usarem luvas durante cirurgias porque pensavam que perderiam sensações táteis. Minha pesquisa em háptica (feedback tátil) em sistemas de teleoperação revelou muitos desafios técnicos que evitam o feedback verdadeiramente apurado, pelo menos por enquanto.

Reproduzir uma representação acurada de como é o toque de um tecido é importante para o cirurgião medir a quantidade de pressão apropriada para evitar danos a esse tecido. Da mesma forma, um chefe cirúrgico com o qual trabalhei, afirmou que nunca usou o sistema porque não conseguia dizer quanta força estava aplicando.

Mas alcançar essa representação tátil tem obstáculos significativos. Se um efetor final atingir um objeto com qualquer quantidade de força, as vibrações de alta frequência e harmônicas são introduzidas dentro do sistema. Em um esforço para dar conta dessas vibrações, o sistema tenta corresponder à posição do efetor onde ele acha que tem que estar, que é baseado nos dados dos sistemas recebidos por codificadores ou sensores. O sistema pode ficar estável ao filtrar essas altas frequências, mas isso às custas de fazer o ambiente parecer “mole”. Se o feedback háptico for implementado nos sistema de hoje, tem o potencial de fazer com que os braços robóticos fiquem fora de controle – o que não é uma maneira ideal de realizar uma cirurgia, sem mencionar a questão da responsabilidade!

Definitivamente há vantagens para o sistema da Vinci; seu grau de liberdade e o estereoscópico que permite acesso a espaços apertados e pode reduzir o impacto da cirurgia no corpo do paciente. Mas é necessário o treinamento, a seleção correta do paciente e os desafios tecnológicos continuam significativos o suficiente para nublar o futuro da real cirurgia robótica. Assim como o original Leonardo da Vinci era um inventor, designer, pintor e escultor, aqueles que buscam a perfeição da cirurgia robótica, precisarão combinar com sucesso a tecnologia, visão e toque.

 

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