Há poucos anos era muito comum ouvir notícias sobre a vinda de executivos estrangeiros para ajudar empresas brasileiras a solucionarem problemas na estruturação de suas operações, hoje, essa tendência tem se invertido. As transformações econômicas vivenciadas pelo Brasil e sua consequente projeção em um contexto econômico global, que também possibilitou a internacionalização de empresas nacionais, certamente contribuíram para que a economia mundial abrisse as portas para os executivos brasileiros assumirem desafios internacionais.
Mas mais que uma questão econômica, o estilo do líder brasileiro tem chamado cada vez mais a atenção de grandes corporações mundo afora. Segundo Caroline Cadorin, gerente da prática de TI, engenharia e supply chain da Hays, o Brasil sempre foi um País culturalmente desafiador, o que contribuiu decisivamente para que o nosso executivo fosse valorizado lá fora. ?No final dos anos 80, passamos por um processo econômico complexo no qual tivemos quatro moedas até chegar ao Real. Então, quando analisamos o momento que os Estados Unidos e a Europa estão vivendo, pós-crise 2008 e todos os seus desdobramentos, percebemos que o profissional brasileiro já passou por situações parecidas e criou mecanismos para lidar com essas dificuldades?, exemplifica.
Quando se pensa apenas em TI, a especialista considera que existe um motivo específico para o movimento de CIOs brasileiros para o exterior: eles adquiriram um papel diferenciado para agregar valor a essas organizações. ?O bom profissional de TI aprendeu a transitar muito bem por todas as áreas, como financeira, supply chain e operacional. Ele enxerga a TI por meio de uma visão holística e como uma área de impacto nos negócios.? De acordo com ela, este é o grande diferencial dos profissionais que recebem convites para atuar em outros países. ?E isso acontece por uma razão simples: eles são escolhidos para promover uma transformação nessas companhias e, muitas vezes, a transformação que se busca é exatamente deixar de ver a TI somente como área de apoio, e sim como negócio.?
E foi para conduzir essa transformação que Paulo Guzzo deixou a vice-presidência de operações e tecnologia da Cielo para liderar uma nova companhia adquirida pelo grupo brasileiro, a norte-americana Merchant e-Solutions (MeS) em 2012. Ao longo de sua carreira, o executivo sempre esteve próximo às áreas de negócios que eram grandes demandantes da TI e, além disso, teve uma participação ativa como consultor no processo de avaliação que envolveu a aquisição e durou cerca de dois anos.
?No Brasil, temos uma característica que é bastante peculiar: o brasileiro não se limita a executar as atividades que são somente de sua competência. Na Cielo, sempre tive a possibilidade de interagir com áreas de negócios e finanças, o que me proporcionou uma visão da administração da empresa como um todo. Acredito que isso não aconteça da mesma maneira nos EUA, onde as funções são mais compartimentadas.No Brasil é mais versátil, procuramos ter a capacidade de olhar para os lados de forma um pouco mais ampla?, avalia.
Para Guzzo, os negócios no País são tocados com uma dinâmica de jogo de cintura que faz com que os profissionais tenham mais flexibilidade, o que, por sua vez, possibilita a transformação apontada por Caroline. Ele acredita que os gestores brasileiros têm apresentado resultados positivos para as empresas estrangeiras não apenas no que diz respeito à gestão, mas alavancando também uma mudança para um perfil mais abrangente e menos cadenciado, que favorece uma visão mais aberta às possibilidades que o mercado oferece.
Uma característica comum de CIOs que são expatriados é o fato de que eles geralmente já possuíam anteriormente uma exposição global nas empresas e se destacaram por estarem próximos da TI de uma forma mais estruturada, sempre olhando para os negócios. ?Eles estão no mesmo nível de profissionais formados lá fora e, muitas vezes, já fizeram algum intercâmbio para aperfeiçoar o idioma ou uma especialização na área de finanças ou negócios para complementar a formação?, acrescenta Caroline.
Assim, quando a companhia farmacêutica Boehringer Ingelheim decidiu agregar estratégias de marketing à sua TI global, a proximidade com os negócios e os resultados conseguidos em projetos de TI com foco em inovação e mobilidade na unidade brasileira foram decisivos para o CIO Rubens Pinto ser convidado a assumir o cargo de liderança da parte de CRM para mercados emergentes da companhia na Alemanha. Acumulando os dois cargos desde 2010, Rubens Pinto considera que hoje o Brasil é um mercado de TI maduro que está atualizado com o que acontece globalmente.
?As corporações europeias trabalham com um timeline diferente. Como os nossos prazos são muito menores, a agilidade e a pró-atividade em dar respostas, a capacidade de lidar com imprevisibilidade e a proximidade com os negócios colaboram para que o profissional esteja apto a pensar em alternativas de forma antecipada. Antes os profissionais vinham para a Europa só para aprender e hoje eles vêm também para exportar essa criatividade essa agilidade?, acrescenta. Dessa maneira, ele acredita que esse perfil pode ajudar muito diante de novos cenários, como o da mobilidade, e contribuir para encontrar saídas e modelos flexíveis capazes de gerar resultados melhores com a criação de soluções que sejam simples e, ao mesmo tempo, inteligentes e eficazes.
Desafios
Mesmo levando diferenciais importantes na bagagem, a adaptação do executivo expatriado é um grande desafio. Acostumar-se com uma cultura diferente e outro modo de conduzir os negócios é uma tarefa difícil e reflete em um processo de transformação. Segundo a consultora da Hays, até a maneira do executivo se relacionar tem que se adequar, visto que em muitos países não há uma necessidade de proximidade no ambiente corporativo, como no Brasil, e acaba sendo substituída por conference calls e gestão remota de equipes.
Além disso, quem também sofre essas consequências é a família, que muitas vezes acaba mudando de país para acompanhar o profissional. Morando há mais de seis meses nos Estados Unidos, Guzzo, da Cielo, teve o total apoio da família e revela que já se sente adaptado. ?Esse tipo de mudança passa por aspectos pessoais e faz com que você tenha que estar aberto para entender o contexto em que está chegando e tenha a capacidade de absorver os aspectos culturais e sociais da empresa para se inserir de maneira relevante nesse cenário. O ponto chave é alcançar um equilíbrio nesta nova vida pessoal e profissional e conseguir fazer com que as pessoas que agora trabalham com você entendam seu estilo não só de gestão, mas de execução?, destaca.
O atual CIO da Rhodia no Brasil, Fernando Birman, já era o braço direito do CIO global antes mesmo de ser covidado para atuar na diretoria mundial de CRM e de planejamento estratégico de TI na França, cargo que desempenhou por quatro anos. ?Uma experiência internacional é algo absolutamente incrível, que agrega tanto do lado profissional quanto do profissional. Tive a experiência de viver outra cultura, outro modo de vida e, profissionalmente, hoje recebo muitos feedbacks positivos de colegas e headhunters?, afirma. Segundo ele, uma combinação entre a qualidade dos CIOs brasileiros e o momento econômico que o País vive, leva a uma maior ocorrência dessas oportunidades. ?Elas vão aparecer cada vez mais e cabe aos brasileiros se prepararem para aproveitá-las ao máximo.?
Dicas
O próprio Birman, que já expatriou muitas pessoas em seu departamento, comenta que a maioria dos casos foi bem sucedida, sendo que apenas de 15% a 20% das expatriações acompanhadas por ele não deram certo, principalmente, por conta da adaptação e da família. Ele considera que as gerações mais novas são ainda mais abertas a esses tipos de desafios e, frequentemente, já buscam experiência em nível internacional ainda na formação, o que, de acordo com ele, facilita a empregabilidade e a ajuda a formar uma visão global desde jovem.
E essa visão global, não só de olhar para outras culturas, mas de entender a TI como parte de um ecossistema integrado indispensável para a evolução dos negócios, capaz de enxergar os impactos do resultado final e compreender as demandas do mercado, é o que leva os CIOs brasileiros a se destacarem e serem escolhidos para assumir novos horizontes em outros países. Rubens Pinto, da Boehringer Ingelheim, lembra que muitas vezes a área de TI acaba ficando muito distante do cliente real da empresa, perdendo a chance de estar mais próximo dos negócios. Para contornar essa realidade, ele conta que nas viagens que fez para países como a China, Rússia e Turquia sempre procurou visitar diferentes hospitais, o que ele considera que foi muito importante ajudá-lo a compreender e avaliar os hospitais do Brasil em comparação com os de fora.
?Meu conselho para os CIOs e outros profissionais de TI que queiram vivenciar essas oportunidades um dia é que eles saiam a campo para aprender como funcionam os negócios. Além disso, a contribuição com projetos globais tem que começar cedo. Quanto mais o CIO e seu time mostrarem não só o seu valor, mas também o dos brasileiros, mais portas serão abertas?, recomenda Rubens Pinto.
Os desafios dos expatriados:
– Adaptação ao clima e cultura
– Entender a forma de fazer negócios no país destino
– Estudar a cultura local para não ter problemas de relacionamentos
– Criar um esquema de transferência que não prejudique a família
O caminho de volta
A oportunidade de vivenciar essa experiência no exterior e ter contato com outras culturas é, sem dúvidas, um diferencial profissional importante para o CIO, o que torna o caminho de volta para o Brasil igualmente atrativo, somado à situação econômica de crise que alguns países enfrentam. Para Caroline, da Hays, o profissional que passa por esse desafio regressa com uma visão mais sistêmica e traz na bagagem aprendizados que podem ajudar a melhorar as estruturas que temos aqui. Por isso, é muito comum que líderes de TI retornem ao Brasil assumindo cadeiras mais relacionadas com negócio e gestão.
?A volta é sempre importante para o País como um todo e para a inserção da nossa competência na tecnologia da informação global. Assim como estamos enviando cientistas e bolsistas pra fora, a ideia é que todas as pessoas que voltem com um know-how técnico administrativo e cultural que contribuam para tornar o Brasil mais competitivo. Como as empresas brasileiras se expandiram muito rápido, esta é uma grande oportunidade para atingirmos um padrão de gestão internacional?, comenta Fernando Birman.
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