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As máquinas dominarão o mundo?

Um pouco de ficção científica

Eu comecei a “mexer com computador” na segunda metade dos anos oitenta do século passado. E ouvi falar de vírus pela primeira vez quase no final daquela década. Redes eram raras e exclusivamente corporativas, a Internet estava em seu nascedouro, computadores domésticos não eram comuns, a maioria dos que existiam ? como o meu ? sequer tinham discos rígidos e a única forma de vírus se propagarem era através de disquetes trocados por usuários. Portanto o que mais me chamou a atenção quando li as observações de Dawkins foi o fato de ele haver pressentido a violenta disseminação de epidemias de vírus ainda em meados da década de setenta do século passado.

Mas o que realmente importa é o conteúdo de seus comentários. A começar pelo apelo quase pueril aos criadores de vírus para que fizessem “melhor uso de seus modestos talentos”. Ora, de Dawkins pode se dizer tudo, menos que seja ingênuo. Seu apelo, partindo de um cientista, emérito professor de Oxford, reflete a postura vigente na época entre os acadêmicos. E talvez esclareça aos que tanto lamentam a falta de segurança da Internet, que acabou se tornando o principal meio de disseminação de vírus, as razões pelas quais a grande rede foi implantada assim, tão frágil e sujeita a ataques. Pois no meio acadêmico, onde ela criou suas bases, poucos imaginavam que fosse usada da forma maliciosa que é hoje.

Também chama a atenção a opinião que Dawkins expressa sobre as mentes doentias dos que criam e disseminam vírus. Os adjetivos “sórdido” e “pequeno” raramente foram tão bem empregados. A comparação entre as sórdidas atitudes do imbecil que desenvolve um vírus apenas pelo prazer de prejudicar centenas de milhares de pessoas que ele sequer conhece e do técnico de laboratório que contamina a água potável para se divertir com a disseminação de uma moléstia infecciosa é perfeita, como perfeita é a classificação de ambos como “mentalmente pequenos”.

Mas o que mais assusta é a analogia, percebida pelo próprio Dawkins, entre os vírus de computador e os memes e entre estes e os genes, entidades replicantes que, segundo Dawkins, governam o comportamento de seus veículos, os seres vivos.

Combinar estes conceitos com os das máquinas autorreplicadoras e Autômatos Celulares de Von Neumann, assim como dos Nanomontadores, é de dar calafrios. Máquinas capazes de fabricar outras máquinas sem interferência humana, orientadas por vírus mal intencionados com os quais foram contaminadas e fora do controle de humanos são um pesadelo já exaustivamente explorado pelos autores de ficção científica e cuja existência a combinação dos conceitos de genes, vírus e memes, todos eles entidades autorreplicastes, torna assustadoramente possíveis.

Um prato cheio para os amantes da ficção científica que se assombram com a ideia de “máquinas que dominarão o mundo” como as da foto de divulgação exibida acima.

Eu, velho assumido e resignado, não tenho muito com o que me preocupar.

Mas vocês, que são jovens, que se cuidem…

B.Piropo

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