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Vibe coding é só um novo nome para uma história antiga

Imagem: Shutterstock

*Por Anderson Arcenio,

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O Collins elegeu “vibe coding” a palavra do ano de 2025. O termo foi cunhado em fevereiro daquele ano por Andrej Karpathy, em um tweet. Em onze meses virou dicionário. A velocidade do batismo diz mais sobre o momento do que sobre o conceito.
Karpathy descreveu uma prática específica: entregar-se ao fluxo, aceitar tudo que o LLM gera, esquecer que o código existe. Ele mesmo disse que o uso era para “projetos descartáveis de fim de semana”. Meses depois, viu o termo escapar do contexto e admitiu ter cunhado a expressão “totalmente alheio a quão longe ela iria”.
Hoje “vibe coding” virou guarda-chuva para qualquer desenvolvimento assistido por IA. E é aí que o conceito começa a atrapalhar mais do que ajudar.
A indústria de software nunca quis programar em assembly. Quis programar em linguagem natural. Cada geração de linguagem foi uma camada de abstração sobre a anterior. Binário, assembly, Fortran, C, Python. Cada salto foi vendido como o fim da programação difícil. Cada salto, no fim, só deslocou onde a programação acontece.
Depois vieram as ferramentas visuais: Frontpage, Dreamweaver, Visual Basic. Depois CMS, low-code, no-code. Cada onda prometeu tornar a programação trivial. Cada onda redefiniu o que significa programar, sem extinguir a profissão.
Agora chegamos no destino que a indústria sempre buscou: descrever software em português ou inglês, e ter código funcional do outro lado. Isso não é uma nova profissão. É a profissão antiga finalmente alcançando o lugar pra onde ela sempre caminhou.
Leia mais: Adistec amplia operação de treinamentos no Brasil e prevê capacitar mais de 500 profissionais em 2026
Simon Willison, programador e comentarista da área, fez a distinção mais limpa do debate. Se um LLM escreveu cada linha do seu código, mas você revisou, testou e entendeu o que está lá, isso não é vibe coding. É desenvolvimento de software.
Andrew Ng, professor de Stanford e ex-líder do Google Brain, foi mais direto numa fala em maio de 2025 no LangChain Interrupt. Para ele, o termo induz as pessoas a acharem que engenheiros de software simplesmente “vão na vibe” quando usam IA. Não vão. Programar com IA é, segundo Ng, “um exercício profundamente intelectual”.
Profissional técnico que usa Cursor, Claude Code ou Copilot não está vibe codando. Está programando com ferramentas mais produtivas, como sempre fez. Trocar de IDE não muda o nome da profissão. Trocar de linguagem também não. Trocar a interface de input para linguagem natural não deveria mudar.
A profissão continua sendo construir software que funciona, escala, é seguro, é entendido por outras pessoas, e aguenta evoluir com o tempo. A camada de digitação mudou. O resto não.
Existe um público real para quem “vibe coding” descreve algo novo: quem nunca programou. Para essas pessoas, a barreira de entrada caiu de uma forma que nenhuma ferramenta anterior conseguiu derrubar. Founders que validam ideias sozinhos, profissionais de negócio que automatizam tarefas e até curiosos que constroem ferramentas pessoais. É democratização de verdade, e merece ser celebrada.
Para esse público, o rótulo serve. Por enquanto. Mas serve com asterisco.
Quem está descobrindo agora que dá pra construir software conversando com uma IA precisa entender o que a IA não otimizou.
Construir um produto envolve traduzir uma demanda de negócio em uma visão de produto coerente. Mapear não só o caminho feliz, mas as combinações que vão acontecer no uso real. Decidir arquitetura que aguente o crescimento. Escolher onde e como armazenar dados. Pensar em segurança da informação, do código, do contexto inteiro. A IA escreve código. Ela não substitui essas decisões.
E os números começam a mostrar o custo de ignorar isso. A Apiiro analisou dezenas de milhares de repositórios em ambientes Fortune 50 entre o final de 2024 e meados de 2025. Desenvolvedores assistidos por IA produziram três a quatro vezes mais commits que seus pares. No mesmo período, os achados de segurança mensais nesses repositórios saltaram de mil para mais de dez mil. Aumento de dez vezes em seis meses. As falhas que mais cresceram foram justamente as arquiteturais, como brechas que dão acesso a dados ou funções restritas e falhas de design, aquelas que exigem raciocínio contextual profundo pra serem detectadas.
A plataforma Lovable, famosa do vibe coding, teve 170 de 1.645 aplicações analisadas com falha de configuração que expunha dados pessoais como nomes, e-mails, telefones, registros financeiros e chaves de API.
Tem um padrão que aparece nos relatos de quem leva projetos vibe codados para produção. Funciona muito nos primeiros três meses. Bate na parede no sexto.
A parede tem nome técnico: dívida. Dívida de código. Dívida de segurança. Dívida de arquitetura. Decisões que pareceram pequenas se acumulam em sistemas que ninguém entende inteiro, ninguém consegue refatorar com segurança, e ninguém quer manter. Vibe coding não é a nova programação. É uma palavra da moda para descrever uma transformação que já estava acontecendo há décadas, com ritmo acelerado pelas LLMs.
Para profissional técnico, é evolução de ferramenta. O nome da profissão segue o mesmo. Pra não-técnico, é porta de entrada. Aproveite. Construa.
Mas saiba o que você está construindo, e o que você ainda não sabe construir. A codificação parou de ser barreira. Tudo o que vem antes e depois dela continua sendo.

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Published by
Isabella Winckler
Tags: engenharia de softwarefundamentosinteligência artificialprogramarvibe coding
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