A frase acima foi mencionada em um debate muito interessante e produtivo sobre o bifurcamento de parte da comunidade OpenOffice.org – OOo – com a consequente criação da The Document Foundation – TDF – que passou a produzir o LibreOffice, uma suíte de programas de escritório destinada tanto à utilização pessoal quanto profissional, compatível com as principais suítes de escritório do mercado, contendo editor de textos, planilha, editor de apresentações editor de desenhos e banco de dados, além de funcionalidades tais como: exportação nativa para PDF, editor de fórmulas científicas, extensões, etc. Volto em seguida à frase do título. Antes, porém, uma breve explicação da situação que levou a criação da TDF.
Tudo aconteceu em setembro do ano passado. A Oracle, que havia comprado a Sun Microsystem e com isso os ativos do OOo e outros projetos da antiga empresa, deixou os desenvolvedores e demais colaboradores da comunidade com dúvidas acerca do real compromisso da Oracle com os projetos Open Source, sobretudo pela falta de transparência e comunicação. A Oracle, na verdade, é uma empresa privada que não sabe lidar com comunidades FLOSS (free/libre Open Source Software) e, pelo visto, não faz questão nenhuma disso.
A reação ao descaso aparente foi a criação de um fork, ou uma derivação, ou bifurcação – todos essas palavras podem ser questionadas e guardam rancores e ressentimentos variados. O fato é que a TDF foi criada e passou a desenvolver rapidamente uma nova suíte baseada no código do OOo. A nova suíte recebeu o nome provisório de LibreOffice, pois havia uma expectativa que a marca OpenOffice.org e também os códigos fossem doados para a TDF, o que não aconteceu como veremos.
A adesão de desenvolvedores ao projeto foi massiva; uma limpeza do código foi efetuada; comentários em alemão foram traduzidos para o inglês. Novos colaboradores foram atraídos porque a TDF alterou o mecanismo de contribuições, valorizando os desenvolvedores sem se apoderar da propriedade intelectual, fazendo valer a meritocracia. Uma lista de “easy hacks” foi elaborada, cujo objetivo era apresentar o código ao novo contribuinte atribuindo-lhe tarefas fáceis, um outro atrativo encorajador.
A TDF trabalhou firme nos últimos meses para melhorar a comunicação interna e externa. Criou o Comitê Diretor de Engenharia e também o Comitê Consultivo, incluindo a participação da SUSE, RedHat, Canonical, Google e Novell. E o mais importante, lançou, em oito meses, duas versões do LibreOffice.
Enquanto isso acontecia, desenvolvedores da comunidade OpenOffice.org que não aderiram à TDF, por razões pessoais ou por acreditarem no projeto inicial sofriam com as incertezas e o silêncio sepulcral da Oracle.
Mas o silêncio foi quebrado com o anúncio da doação do OOo para a Fundação Apache; uma reviravolta, que incluiu a empresa IBM e que gerou um debate sem fim no mercado e comunidades. Embora este fato seja recente – o anuncio foi feito no dia 01 de junho – muita água passou debaixo da ponte. A incubadora da Fundação Apache recebeu e aceitou o projeto; uma lista de discussão foi criada e o fluxo aumentou vertiginosamente chegando a 400 mensagens/dia demonstrando que o Apache OpenOffice.org é uma realidade.
A oportunidade de unir as duas comunidades foi perdida. A TDF lamentou o fato, a Fundação Apache só pensa em estruturar o projeto novamente para lançar a próxima versão do OOo – o que deve acontecer em seis meses, numa previsão otimista.
E neste ponto volto ao título deste artigo. Por trás dessa frase há, na verdade, um posicionamento de parte da comunidade brasileira, que não aderiu ao projeto da TDF. Aliás, a comunidade brasileira é um capítulo a parte que pretendo abordar em um próximo texto.
*Luiz Oliveira é jornalista Membro da The Document Foundation.
**As opiniões dos artigos/colunistas aqui publicadas refletem unicamente a posição de seu autor, não caracterizando endosso, recomendação ou favorecimento por parte da IT Mídia ou quaisquer outros envolvidos nesta publicação
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