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Ameaças Globais

No final de junho foi publicado um relatório da organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE acesse o relatório completo aqui) intitulado “Future Global Shocks”, ou seja, “As futuras Crises Mundiais”, com interessantes aspectos que merecem ser comentados aqui. De forma resumida, o relatório aponta que crises de escalas globais serão mais freqüentes e mais graves, e aponta diversos argumentos para essa conclusão. O informe alerta também sobre os cinco grandes riscos potenciais para os próximos anos: uma crise financeira, uma pandemia, um conflito sócio-econômico, uma tempestade geomagnética e um ciberataque contra uma infraestrutura essencial. Ficou assustado?

O primeiro deles já está acontecendo agora, com a nova crise financeira mundial nos países desenvolvidos que poderá se aprofundar culminando na desintegração do EURO ou, pelo menos, na redução significativa dos países que o adotam. Fruto da globalização comercial, as economias estão muito integradas e o dinheiro flui entre países com uma velocidade nunca vista antes “na história desse país”.  Quem não se lembra dos “ataques especulativos” ocorridos no inicio desse século contra países emergentes, muitos desses ataques associados à figura de George Soros e seus fundos de investimento multi-bilionários que “invadiam” países com debilidade monetária artificial a fim de auferir lucros fantásticos com o reajuste dessas moedas. Hoje isso é corriqueiro, o dinheiro que deixa de ser pago em uma divida na Grécia acaba saindo do bolso de um investidor de fundos de renda fixa na Bolívia, por exemplo. Quando a classificação de risco da divida americana foi rebaixada pela Standard & Poors no final da semana passada, foi a China quem mais chiou, e foi a Europa que mais sofreu, a ponto do BCE (Banco Central Europeu) ter comprado em grandes quantidades títulos da dívida italiana e espanhola, dois países com problemas, para assegurar-lhes a rolagem de suas dividas a um custo competitivo.

Outro elemento citado como catalisador de uma nova crise global, a pandemia viral, é de característica mais técnica. O relatório da OCDE cita a gripe H1N1 em 2009 como um caso de risco moderno, onde tivemos a oportunidade de aprender o que funciona e o que não funciona em uma operação de combate epidêmico. Cita o aumento da população, globalização, mudanças demográficas como elementos de risco na dissipação de doenças. Alguns analistas consideram que o “tempo de dormência” do vírus seria um fator importantíssimo para a epidemia global, pois doenças de contágio rápido com rápida apresentação de sintomas podem ser erradicadas ainda no seu inicio, enquanto que doenças com sintomas mais demorados teriam mais tempo para se espalhar incólume na população. O número crescente de megalópoles muito povoadas, principalmente na Ásia, com grande número de viajantes (turismo e negócios) aumenta consideravelmente o risco de propagação de doenças com características epidêmicas, isso sem considerar as doenças transmitidas por alimentos contaminados, como vimos recentemente na “crise do pepino” européia.

Curiosamente o relatório da OCDE cita o impacto de desastres naturais como um grande catalisador de crise global, como o recente tsunami no Japão, e as erupções vulcânicas na Islândia e Chile, que fecharam as rotas aéreas de vários países. São eventos sob os quais a sociedade moderna não tem controle, e não tem como prever com a antecedência necessária para minimizar seus efeitos. Com as economias tão interligadas e a produção de certos insumos tão concentradas em determinadas regiões, qualquer atividade sísmica forte é capaz de causar graves danos econômicos globais. As marcas japonesas Toyota e Honda foram severamente impactadas globalmente pela falta de suprimentos oriundos das suas fábricas no Japão, abaladas pelo terremoto recente. Embora esses desastres naturais sejam raros e imprevisíveis, seus impactos globais serão cada vez mais percebidos pela população. A OCDE cita as raras tempestades geomagnéticas como grandes catalisadores de crises globais, devido a seus impactos nos dispositivos eletrônicos utilizados em todo o mundo. Não por acaso os cientistas tem estado muito preocupados com a recente atividade solar, com fortes erupções e interferências magnéticas cada vez mais freqüentes. Um pulso eletromagnético de certa força expelido pelo sol pode literalmente fritar todos os satélites de comunicação em orbita da terra, nos levando de uma hora para outra para a idade média.

Embora não tenha sido citado explicitamente no relatório, as agitações populares vistas nos países árabes do mediterrâneo, bem como a recente explosão de violência em Londres, estão relacionados ao riscos globais mencionados no relatório quando este cita os conflitos sócio-econômicos, como os  problemas da imigração populacional (o risco social da integração), o crescimento da classe média com acesso a informação capaz de se organizar, e a informação facilmente acessível (as redes sociais, internet, etc) como meios de mobilização de grandes massas populacionais. Em maior ou menor escala, já estamos vendo isso acontecer em certas regiões do planeta, e há autores que mencionam “gente demais no planeta” como uma das causas. A verdade é que todos querem qualidade de vida, e isso é obtido através do trabalho individual e do investimento governamental em infraestrutura de base. A maioria dos países enfrenta altos índices de desemprego e os governos estão muito endividados, é natural que as agitações sociais aconteçam. E é no campo social que temos o gancho tecnológico que puxa o assunto tema dessa coluna, os ciberataques.

Hackers sempre existiram, se seus “talentos” são notáveis, pois são capazes de atacar empresas bilionárias e grandes países a um custo ridiculamente baixo, algo que interessa demais há várias organizações terroristas ou a grupos fanáticos. Diversos autores consideraram que a Cyber War já começou, está em andamento, e os governos financeiramente enfraquecidos não estão atentos o suficiente para essas ameaças. A OCDE cita explicitamente a vulnerabilidade das infraestruturas de suporte a sociedade (desde sistemas bancários até distribuição de energia, tráfego aéreo, sistema de saúde, etc) por estarem todas interligadas e interdependentes uma das outras. Um ataque coordenado pode fazer ruir algumas dessas estruturas causando panes de efeito global. Hoje foi divulgado na internet que os Hackers estão planejando um ataque ao Facebook, e ao longo das ultimas semanas temos visto vários ataques coordenados a empresas e instituições, até mesmo aqui no Brasil, com o vazamento de emails de políticos, etc. Já imaginou se ao invés disso estivesses derrubando a rede de tráfego aéreo americano, ou interferindo no mercado de títulos da dívida na Europa?

A “ameaça hacker” faz parte do medo coletivo, citado em filmes e livros há muito tempo, mas “nunca antes na historia desse país” esses grupos estiveram tão perto de causar danos globais, utilizando como armas uma rede de quase 1 bilhão de computadores pessoais “zumbis” espalhados pelo mundo, e capazes de se organizar tão rapidamente usando as redes sociais, interferindo diretamente na desatenta mídia jornalística que hoje mal checa suas fontes, como o recente caso contado pelo Mestre Piropo em sua genial coluna “Afinal, quem é o mais estúpido?”

Teorias de conspiração à parte, e sem citar as profecias do fim do mundo, o relatório da OCDE faz várias recomendações para minimizar esses riscos, recomendações essas que para serem executadas dependem de uma liderança global inexistente, de um custo financeiro inadequado para os momentos atuais, e de uma mudança no modelo capitalista que seria impensável nos dias de hoje. Para quem gosta de história, é farta a documentação sobre o assassinato em Sarajevo do Arquiduque austro-húngaro Francisco Ferdinando pelo sérvio nacionalista Gavrillo Princip citado como o estopim da primeira guerra mundial em 1914. Se levarmos em conta o cenário político-econômico europeu de 1914, podemos dizer que o assassinato de Francisco Ferdinando foi apenas o catalisador das reações que culminaram nas duas guerras, e  31 anos depois, duas bombas atômicas em solo japonês redefiniram as fronteiras geoeconômicas mundiais.  Catalisadores… Tenho medo deles…

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