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A web não vai morrer, viu Elis?

Uma tentativa de resposta inteligente

Ao que parece nosso amigo Darth_Kenobi confunde previsão com augúrio. E como mais lhe agrada usar seu programa navegador que os aplicativos que estão tomando seu lugar, reclama.

E, o que é mau, reclama de mim e da Elis. E, ao que parece, também do Chris Anderson.

Ora, tanto quanto me foi dado perceber, não obstante o título claramente exagerado e sensacionalista, tudo o que Chris Anderson afirma em seu artigo é que, em valores relativos, a proporção do tráfego na Internet devido ao que ele chama de web cai cada vez mais em detrimento daquela devida aos aplicativos. Mas em nenhum momento ele parece demonstrar que está satisfeito com isto ou emite qualquer juízo de valor (ao contrário, em alguns pontos do artigo ele até parece contrariado; a páginas tantas, diz ele em tom de lamento: “Tudo isto é inevitável. A história das revoluções industriais, afinal, não passa de um conto de batalhas pelo controle“). No artigo da Elis também não percebi qualquer sinal de regozijo pela morte anunciada. E, no que me diz respeito, posso afirmar com toda a convicção: embora concorde que a tendência é clara e que os aplicativos cada vez mais tomam o lugar que, por direito e antiguidade, pertencia à web, esta tendência não me agrada nem um pouco.

Ou seja: minha atitude de admitir a ocorrência do fenômeno não significa que ele me deixe feliz. Muito pelo contrário.

Os comentários daqueles que se revoltaram contra o “absurdo” da afirmação de que a web está definhando me fizeram lembrar de uma coluna que publiquei alhures há cerca de quinze anos, quando a Internet se pôs ao alcance do público em geral e o correio eletrônico começou a se popularizar. Escrevi então que, segundo tudo indicava, aquilo iria acabar com os BBS.

Na coluna apenas identifiquei uma tendência sem jamais afirmar que ela seria desejável. Na verdade, usuário fiel de alguns BBS, eu mesmo lamentava que estivessem fadados a desaparecer (embora não tivesse afirmado isso na coluna, como depois percebi que deveria).

Pra que! Só faltaram me linchar por haver afirmado um absurdo como aquele. Com que autoridade eu me dava ao desfrute de fazer uma previsão tão disparatada? Como poderia afirmar tamanha bobagem? Os BBS prestavam um serviço tão relevante à comunidade micreira que jamais desapareceriam, algo que seria evidente por si mesmo e que somente não era percebido por um beócio atrevido como eu.

Era a reação natural de quem via uma ameaça pairar sobre algo que amavam. Como não podiam impedir que se materializasse, se revoltavam contra quem a previa. Era como jogar pedra no pobre carteiro que trouxe uma missiva da amante anunciando que ela havia se apaixonado por outro.

Hoje, meros quinze anos depois, provavelmente nem metade dos leitores desta coluna sabem o que foram os “eternos” BBS.

Com isto em mente, olhem novamente para o gráfico da Wired. Imaginem que, em 1990, antes da Internet se tornar pública, alguém dissesse a um usuário habitual de Telnet (um protocolo que permitia acesso via Internet a computadores a partir de terminais remotos) que dentro de alguns anos aquele serviço cairia em desuso. Ou, em 1995, alguém postasse uma nota em um grupo de notícias (que começaram a se popularizar justamente em substituição aos BBS) que dali a cinco anos não mais haveria grupos de notícias. Que reação esperar de alguém a quem se anuncia o declínio de um serviço que aprecia?

Então, meu caro Darth_Kenobi, ninguém está a querer dizer que deves parar de usar teu programa navegador e suas abas com as quais podes fazer tantas coisas ao mesmo tempo. Eu mesmo o uso para fins semelhantes, isto me agrada bastante e pretendo continuar usando enquanto houver sítios nos quais eu possa navegar. Nem me agrada o fato de ter que instalar “milhares de aplicativos” para fazer, no fundo, as mesmas coisas que faço com meu programa navegador. E, evidentemente, ainda prefiro navegar a esmo por diferentes páginas de distintas lojas virtuais para escolher calmamente o produto a comprar. E não sinto orgulho algum em ser “futurista” para prever que tudo isto vai minguar (pois, acabar, não creio que vá). Mas não posso negar as evidências.

As evidências são que, em 2015, considerada a atual taxa de migração, o número de acessos à Internet originados em pequenos dispositivos móveis (o que inclui telefones espertos e outros badulaques de tamanho similar) será maior que aquele gerado por computadores de mesa. E, se a tendência não lhe agradou, desta vez não reclame comigo, mas com a empresa Stanley Morgan que chegou a esta conclusão (veja artigo de Jolie O?Dell publicado no Mashable que, ironicamente, integra justamente aquilo que Chris Anderson chama de Web para a qual prevê um futuro tão negro).

Foi lá que obtive o gráfico da Figura 2, que mostra a evolução, estimada pela Stanley Morgan, do número total de computadores ao longo dos anos, desde a década de 1960 quando havia pouco mais de um milhão deles. Repare que em 2015 deverão ser cerca de dez bilhões, mais da metade deles sendo dispositivos móveis com acesso à Internet (a previsão não é minha; quem se der conta que a população mundial, hoje, é de apenas sete bilhões de habitantes e achar que a previsão de dez bilhões de dispositivos, fixos e móveis, daqui a cinco anos é exagerada, favor reclamar com a Stanley Morgan, não comigo).

Pois foi justamente a disseminação destes minúsculos dispositivos que deu origem aos primeiros aplicativos que substituíram os navegadores. Diz Chris, em seu artigo: “For the sake of the optimized experience on mobile devices, users forgo the general purpose browser. They use the Net, but not the Web” (“Visando otimizar o uso de dispositivos móveis os usuários abrem mão do navegador de uso geral. Eles usam a Internet, mas não a web”).

Mas qual seria a razão disso? Com certeza o tamanho das telas. Pois acontece que em um bicho destes, com suas telas pequeninas, é muito mais fácil consultar um mapa do Google Maps usando um aplicativo dedicado em tela cheia. Ou ver um vídeo do YouTube. Ou editar mensagens de correio eletrônico. Ou verificar o que se passa no Twitter. Ou usar o Skype. Eu mesmo, infeliz proprietário de um telefone estúpido (que deveria ser esperto, mas é um Motorola Milestone equipado com sistema operacional Android, e pior combinação não há), sei como é duro consultar um programa navegador em uma tela pequena (e olhe que, neste ponto, o Motorola Milestone é dos menos piores, com uma tela de dimensões razoáveis e excelente definição).

Há que instalar um aplicativo para cada um? Paciência… Pelo menos assim se consegue ler as mensagens, decifrar os mapas, apreciar os vídeos. E é natural que quem se acostumou a usar estes aplicativos no dispositivo móvel os acabe instalando no micro de mesa e apelando para eles quando necessário ? portanto deixando de lado o programa navegador. Facilita as coisas, padroniza os procedimentos.

A tendência, então, detectada por Chris Anderson, é que, com o aumento do número de dispositivos móveis, aumente proporcionalmente o tráfego gerado por seus aplicativos na Internet. Com a disseminação de empresas que usam a infraestrutura da Internet para atividades como transmissão de vídeo, troca de mensagens de voz e vídeo, jogos tipo “peer-to-peer” (em que um jogador enfrenta um ou mais adversários com os dados trafegando sobre a Internet mas fora da web),redes privadas virtuais de caráter empresarial, empresas de venda direta de áudio e vídeo tipo ITunes, nenhuma delas usando um programa navegador, o tráfego web será, proporcionalmente, cada vez menor (o tráfego gerado por grande parte dos aplicativos citados acima corresponde àquela faixa roxa intitulada “peer-to-peer” na Figura 1). E, a se manter a tendência atual, isto é um fenômeno inevitável.

Isso é bom ou é ruim?

Bem, cada um tem direito à sua opinião. Mas, para mim, é ruim. Esta tendência, se me dão permissão para inventar uma palavra, “desdemocratiza” a Internet. Faz com que ela seja cada vez mais “proprietária” e, honestamente, desconfio tremendamente das intenções de alguns dos que se anunciam como novos grandes proprietários.

Eu ainda prefiro a vasta, livre, extrovertida, leve e desinibida amplidão dos mares da web, onde posso navegar sem amarras, ir onde me aprouver sem dever nada a ninguém nem ter, a cada passo, que distribuir cliques concordando com termos de responsabilidade, licenças de uso e afins.

Mas quanto mais olho para aquele gráfico da Figura 1, mais me convenço que a tendência é inevitável. Por menos que isto me agrade ? e, quero deixar bem claro: não me agrada ? os Facebooks, Twitters, IChats e GoogleTalks da vida dominarão cada vez mais o universo da Internet e o bom e velho programa navegador será cada vez menos acionado.

Ao contrário do que lhe parece, meu bom amigo Darth_Kenobi, não tenho orgulho algum em anunciar isto.

Mas esta é a tendência e quem não se conformar com ela ficará irremediavelmente ultrapassado.

Até mais.

B.Piropo

Uma tentativa de resposta inteligente

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