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A Inteligência Artificial já está batendo à porta

Li atentamente o relatório “Artificial
Intelligence and Life in 2030
”, o primeiro do estudo “One Hundred Year Study on Artificial
Intelligence
”, que se propõe a investigar e analisar a
evolução da IA (Inteligência Artificial) e seus impactos nas pessoas,
comunidades, empresas e na sociedade. Recomendo sua leitura e aqui vamos
resumir algumas de suas reflexões e inserir alguns insights que o relatório despertou.

IA não é futurologia, mas realidade. IA pode ser definida livremente
como a ciência e o conjunto de tecnologias computacionais, inspirados (embora opere de forma muito diferente) nas maneiras como as pessoas sentem as
coisas, aprendem, raciocinam e tomam decisões. Existe uma definição mais
formal, de Nils Nilsson que explicita: “Artificial Intelligence  is that activity devoted to making machines
inteligent, and intelligence is that quality that enables an entity to function
appropriately and with foresight in its environment
”.

É uma ciência que começou 60 anos
atrás
, mas que tomou impulso acelerado nos últimos anos. Interfaces de
linguagem natural, reconhecimento de imagens e algoritmos já fazem parte de
nossa vida. Usamos, até sem saber, no Facebook, Amazon, Siri, Waze, Netflix, Google,
Uber, etc. Os algoritmos influenciam nossa vida e discute-se até que ponto
devemos terceirizar a eles as decisões e orientações que tomamos. Leiam o excelente
artigo de Tim O´Reilly, “The
great question of the 21st century: Whose black box do you trust?
”.

O relatório define o horizonte de 2030 por que nos próximos
14 anos veremos tanta evolução como nos últimos 100 anos. E vai continuar
exponencialmente após 2030! Quando analisamos as tecnologias de IA ainda
identificamos muitas limitações. Mas se pensarmos em uma evolução exponencial,
essas limitações poderão ser eliminadas em muito pouco tempo. Por exemplo,
estudo publicado pelo MIT, “Robots
That Teach Each Other
”, mostra que será perfeitamente possível que
robôs ensinem aos demais o que aprendem na prática.

Esse cenário nos traz imensas oportunidades, mas também
novos desafios. Os impactos potenciais são ainda difíceis de serem mensurados e
por isso, em alguns países como os EUA, o governo tem desenvolvido pesquisas e
debates sobre o assunto. O artigo “White
House’s final artificial intelligence workshop highlights need for humans to
hold the reins on AI
” sumariza as reflexões. E um dos pontos levantados
merece ser bem analisado: “At its best,
artificial intelligence can be a tool to promote equity, and it obviously can
create huge economic opportunity for a lot of people,” she said. “But it can
also have discriminatory effects, whether they’re intended or unintended. …
We’re certainly not going to turn a blind eye to this
.” Inevitavelmemte, serão demandadas e criadas regulações que sobre o uso de IA. O risco é, por
desconhecimento dos reguladores ou influências políticas de grupos de pressão
contrários, termos regulações que impeçam as tecnologias de IA de serem
exploradas em todo o seu potencial. Regulações mal concebidas inibem inovação.

O relatório aborda o impacto da IA em uma cidade típica
americana, que é diferente da nossa realidade, mas muito do que acontecerá por
lá chegará aqui no Brasil,  mais cedo ou mais tarde. Vivemos em um mundo
globalizado e apesar do futuro não chegar a todos os países de forma homogênea,
nada impedirá que as transformações causadas pela IA também nos afetem
significativamente.

O setor de transporte será um dos setores mais impactados.
Os veículos autônomos já são realidade, e em poucos anos serão comuns em muitos
países. No fim de agosto, a nuTonomy, uma filial do MIT, se antecipou ao Uber
e lançou o primeiro veículo autônomo que pode ser alugado ou pego
em plena rua por qualquer pessoa. O espaço no qual será possível usá-lo é,
por ora, muito limitado: apenas seis quilômetros quadrados de vias públicas. A mesma região na qual foram realizados os testes do veículo e onde se continua
estudando o funcionamento desse tipo de carro: o One North, distrito financeiro de Singapura, no qual estão sediadas todas as grandes
empresas de tecnologia do mundo e que tenta imitar o Vale do Silício, nos Estados Unidos.  A área foi escolhida porque as
pessoas que frequentam a região estão bem relacionadas com o campo da
tecnologia. Interessante que todos esses veículos autônomos sejam elétricos. Este
primeiro protótipo é um Mitsubishi imiev, mas os táxis que comporão a frota em
2018 em Singapura serão do modelo Renault Zoe. 

A corrida pelos táxis sem motorista está apenas começando. Em setembro foi a vez do Uber, “Uber Debuts Self-Driving Cars in Pittsburgh”. Veículos
autônomos estarão em toda a parte, nos automóveis de passeio, caminhões,
tratores. E em breve será muito difícil separar empresas como GM, Uber ou uma
Avis. Talvez sejam um único negócio. Algumas estimativas apontam que se
barreiras tecnológicas e regulatórias forem resolvidas, cerca de 15% dos novos
carros vendidos em 2030 serão inteiramente autônomos. Os outros 85% serão
parcialmente autônomos, com diversas funções automáticas embutidas como
estacionamento e direção em estradas sem assistência do motorista.

Carros autônomos, além de eliminar a necessidade de
motorista (a direção poderá, talvez, ser opcional, por prazer), vão afetar toda
a indústria, pois vão incentivar o compartilhamento de veículos, afetando toda
a cadeia de valor da indústria automotiva e negócios adjacentes como
seguradoras e até mesmo receitas de multas de trânsito.

Outro setor a ser impactado significativamente pela IA será
o de saúde. Uma leitura do artigo “Artificial
Intelligence Will Redesign Healthcare
” mostra claramente o quanto de transformação veremos em saúde, provocada pelo uso de algoritmos e da
IA. Ainda temos um bom caminho a percorrer, mas lembrando que vivemos na era da
exponencialidade, ele será trilhado rapidamente. Alguns aspectos devem ser
analisados e resolvidos, como a criação de padrões éticos aplicáveis e
obrigatórios ao uso da IA no setor da saúde e à revisão do ensino do
profissional de saúde, para que eles tenham conhecimentos básicos sobre como a
IA trabalha em um ambiente médico, de modo que consigam compreender como tais
soluções podem ajudá-los no seu dia a dia.

As empresas do setor devem entender o potencial disruptivo
da IA para tomar as decisões necessárias para incorporá-la ao seu negócio. Para
termos uma ideia mais precisa do potencial de IA em medicina, veja este artigo:
From
Virtual Nurses To Drug Discovery: 90+ Artificial Intelligence Startups In
Healthcare
”. Essa frase de um
analista da Frost & Sullivan, Harpreet Singh Buttar, é emblemática desse
cenário: “By 2025, AI systems could be involved in everything from population
health management, to digital avatars capable of answering specific patient
queries
”.

Outro setor para o qual o relatório chama atenção é o de
educação. Algumas experimentações já sinalizam o futuro. O Ozobot é um robô que ensina crianças a
desenvolver lógica de programação. Os MOOC (Massive Open Online Courses) usam
cada vez mais algoritmos e interfaces de linguagem natural para melhorar a
interação com os alunos. Os algoritmos permitem desenvolver e coordenar
treinamentos individualizados, reconhecendo que os indivíduos são diferentes, e
aprendem de forma e em ritmos distintos. O uso de IA e tecnologias como Realidade Virtual e Realidade Aumentada tem o potencial de transformar a
educação nos próximos 15 a 20 anos.

O relatório aponta também as mudanças potenciais provocadas
pela IA na área de segurança pública, e obviamente no emprego. Funções serão
eliminadas e outras criadas ou transformadas. Já abordei o tema aqui. Um dos
artigos que escrevi abordou o impacto da IA em uma profissão bem conservadora,
a dos advogados. O artigo “Ainda
existirão advogados no futuro?
” procura mostrar que nenhuma profissão atual
passará imune pela IA. À medida que os avanços nas tecnologias de IA, como Machine
Learning e robótica avançarem, será inevitável a substituição de funções
ocupadas por humanos hoje. Ocupações que consistem de tarefas e procedimentos
bem definidos poderão ser substituídos por algoritmos sofisticados. Como o
custo da computação cai consistentemente, ano a ano, torna-se atrativo
economicamente a substituição de pessoas por máquinas.

O processo é acelerado pela reindustrialização nos países
ricos, como os EUA, que após perderem suas fábricas para países de mão de obra
barata, como a China, começam a trazê-las de volta, mas de forma totalmente
automatizadas. Os empregos da indústria americana, perdidos pela saída das
fábricas, não estão voltando com elas. Quem está ocupando as funções são os
robôs.  Este processo também está
ocorrendo na China. Já existem diversas fábricas totalmente automatizadas lá e
cada uma delas emprega pelo menos dez vezes menos pessoas que as fábricas
tradicionais. Recomendo a leitura de um estudo muito instigante, “The
Future of Employment: How susceptible are Jobs to Computerisation?
”.

Em resumo, a IA já está batendo à porta. Não interessa se
vamos abri-la ou não. Ela vai entrar. Portanto, precisamos estar
preparados, como profissionais, como executivos líderes de empresas ou como
gestores públicos, para entender esse fenômeno e agir de forma adequada.
Impedir a inovação será contraproducente para a competitividade do país em um mundo
altamente globalizado e competitivo. Por outro lado, precisamos criar
mecanismos que nos permitam dominar a tecnologia,  e não sermos dominados por
ela.

 

(*) Cezar Taurion é CEO da Litteris Consulting, autor de seis livros sobre Open Source, Inovação, Cloud Computing e Big Data

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